21 de Janeiro dia de rememorar o racismo em nome de “Deus”.

Da Redação

O dia 21 de janeiro foi institucionalizado como o dia de combate a intolerância religiosa, a data faz referência ao falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA).

A morte da sacerdotisa do candomblé se deu após ter a sua casa e terreiro invadidos por grupos ligados a igrejas evangélicas neopentecostais, ter seu marido agredido e posteriormente ser acusada de Charlatanismo pelo periódico “Folha Universal” mantido pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) do Bispo e proprietário da Rede Record de televisão Edir Macedo.

Na ocasião a Folha Universal, na edição de 26 de setembro a 2 de outubro de 1999, estampou em suas páginas a matéria intitulada “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”, o texto fora ilustrado com a foto da Mãe Gilda, com uma tarja preta em seus olhos, uma imagem de propriedade da Revista Veja e que havia sido publicada originalmente reportando a participação da mãe-de-santo em um manifestação a favor do impeachment do presidente Collor.

Gildásia dos Santos, morreu em decorrência de um infarto ocasionado por essa sequência de fatos que rendeu a condenação do aludido apostolado ao pagamento de R$ 1,4 milhão em primeira instância valor que após contestação pelos advogados de defesa foi revisto para R$ 20,75 mil para cada herdeiro, o equivalente ao total de R$ 145,25 mil.

Em sua alegação os representantes de Macedo argumentaram não haver ligação jurídica entre a Igreja Universal e a Folha Universal, jornal impresso pela Editora Gráfica Universal, em uma tentativa de manobra jurídica questionaram a autoria da ação pelos filhos da vítima.

Segundo o juiz Carlos Fernando Mathias, do STJ e relator do caso, “independentemente de estarem ou não registradas em nome da mesma pessoa jurídica, a Folha Universal e a gráfica pertencem ao mesmo grupo empresarial”.

Poderíamos aqui analisar o valor da indenização, mas essa é a questão fundamental no caso?

Honestamente eu acredito que essencialmente duas perguntas devem ser feitas, em primeiro lugar é importante saber quais foram as consequências concretas para Edir Macedo e o Grupo Universal e em segundo lugar é importante sabe o que mudou desde então.

Em relação ao primeiro questionamento é notável como desde 1992 quando o próprio Bispo Macedo foi preso sob acusação de Charlatanismo, curandeirismo e estelionato seu patrimônio apenas cresce, são comuns a eles acusações quanto ao uso de doações de fiéis para fins particulares e comerciais, recursos que auxiliaram o bispo Edir Macedo e sua mulher, Ester Eunice Rangel Bezerra, formarem um patrimônio que contam entre outros patrimônios com dois apartamentos de luxo em Miami, nos EUA.

De acordo com a revista "Veja”, ao menos um dos imóveis nos Estados Unidos, adquirido em 2006, em nome de Ester e é avaliado em US$ 2,1 milhões metade do valor do segundo registrado em nome do casal, comprado em 2008 e que custou US$ 4,7 milhões. (A mesma época em que foram apenados pelos familiares de Mãe Gilda).

Em 2007, o bispo construiu mais um imóvel de 2 mil metros quadrados em Campos do Jordão (SP) com valor de R$ 6 milhões, a mesma região onde já possuía outra casa

Consta que esse movimentação econômica entre 2001 e 2008, teria sido resultado dos mais de R$ 8 bilhões em doações que a igreja recebeu de seus seguidores. Ações no ministério público indicaram que o dinheiro era passado como parte de pagamento para empresas de fachada controladas por integrantes do grupo: a Cremo Empreendimentos e a Unimetro Empreendimentos, uma movimentação que tinha como objetivo burlar o fisco.

Notem que estou me focando na movimentação do período em que a Iyalorixá foi assassinada (termo correto a ser empregado) e não nas movimentações posteriores que fariam esses parecerem o troco do pão, com isso perceberemos que não ocorreu nem mesmo uma consequência imediata para os réus e a mensagem que ficou é a de que a perseguição aos filhos e filhas de “santo” está liberada, e com essa mensagem subliminar temos clara a resposta da segunda questão, o que mudou? Nada!

O resultado disso concretamente vai além do simples “enriquecimento”, os Neopentecostais representam mercadologicamente um setor em ascensão, politicamente estão absurdamente organizados, ao ponto de terem fortes bancadas no congresso nacional, estados, municípios, e por falar em municípios governam centenas deles e pela primeira vez uma grande capital, alguém tem dúvidas de que a intolerância vai virar política de estado?

Nos últimos anos na mesma proporção do volume financeiro de Edir Macedo crescem as denúncias de intolerância religiosa somente em 2014, o Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), registrou 149 denúncias de discriminação por motivação religiosa. A maioria, 26,17%, foram provenientes do estado Rio de Janeiro e, 19,46%, do Estado de São Paulo. O número representa uma redução em comparação com 2013, quando foram recebidas 228 ligações ao todo, no entanto em 2015 foram 252 casos um aumento de 69% em relação a 2014 atingindo seu maior número desde 2011, quando o serviço passou a receber esse tipo de denúncia.

Foram 15 em 2011, 109 em 2012, 231 em 2013, 42,8% das queixas recebidas representam apenas os estados da região sudeste.

Nesse contexto outra pesquisa, divulgada no Rio de Janeiro, apontam que as religiões de matriz africana são o alvo principal dos casos de intolerância:

Pela primeira vez desde sua criação em 2008 a pesquisa cruzou informações de outros institutos e pelo menos três pesquisas acadêmicas, foram 697 casos registrados pelo disque 100 da Secretaria Nacional de Direitos Humanos entre 2011 e 2015, somente no Rio de Janeiro o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir), criado em 2012, registrou 1.014 casos entre julho de 2012 e agosto de 2015, sendo 71% contra adeptos de religiões de matrizes africanas, 7,7% contra evangélicos, 3,8% contra católicos, 3,8% contra judeus e sem religião e 3,8% de ataques contra a liberdade religiosa de forma geral.

Fato que demonstra a subnotificação dos dados nacionais, conclusão que aparece no levantamento carioca, segundo a PUC-Rio em seus estudos foram ouvidas lideranças de 847 terreiros, com 430 relatos de intolerância, desses apenas 160 foram legalizados com notificação e somente 58 levaram a algum tipo de ação judicial.

A investigação aponta que 70% das agressões são verbais, mas não seguem exclusivamente neste modal elas também vem como pichações em muros, postagens na internet e redes sociais, além de invasões de terreiros, furtos, quebra de símbolos sagrados, incêndios e agressões físicas.

Denúncias por Estado:
  • SP: 37
  • RJ: 36
  • MG: 29
  • BA: 23
  • RS: 12
  • PE e PR: 10
  • PB: 7
  • DF, ES e GO: 6
  • CE e PI: 4
  • AM, MS, PA e SC: 3
  • AL: 2
  • AC, MA, MT, RN, SE: 1
  • AP, RO, RR, TO: 0
NA (denúncias que não tiveram o Estado especificado): 43 Total: 252

Não por acaso 35,39% das vítimas de discriminação por motivação religiosa eram negros, enquanto 21,35% eram brancos e, 0,56%, indígenas, uma característica que aliada a subnotificação, as contradições e a ausência de dados nacionais esconde o forte caráter racista que contém nesta situação e que fica camuflado pelo conjunto da obra, enquanto isso a esquerda socialista...

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