A “Causa Mortis” de Vera Verão

Foi registrado como Marcelo Mendonça Rossi, mas notabilizou-se como Padre Marcelo Rossi, nascido em 20 de maio de 1967 em berço católico, sua origem nos leva ao bairro de Santana onde foi criado com suas irmãs Monica, e Marta e tiveram uma criação típica das famílias de classe média paulistanas.

Seu pai gerente de banco, sua mãe dona de casa, formou-se em Educação Física pela Universidade de São Paulo (USP), afastado da igreja alguns (perdeu um primo em um acidente de carro e descobriu que sua tia tinha um tumor maligno na cabeça) traumas pessoais o levaram a retomar o vínculo religioso que havia rompido aos 16 anos.

Retomou as atividades paroquianas e um ano depois inspirado pelo Papa João Paulo II decidiu por dedicar-se a vida sacerdotal. Cursou: Filosofia, pela Universidade Nossa Senhora Assunção, e Teologia, pela Faculdade Salesiana de Lorena ordenando-se padre 1° de dezembro de 1994.

A consciência acerca de sua homossexualidade veio cedo, já com seis anos de idade, para a Revista Raça Jorge Lafond disse:

“As pessoas falavam que ser gay era uma coisa muito feia, e eu ficava com a cabeça tontinha. Mas o medo de meus pais descobrirem era tão grande que eu procurava andar na linha e estudar bastante.”

Sua dedicação, no entanto, não se resumia aos estudos com dez anos de idade, já trabalhava das 9 às 17 horas numa oficina mecânica e aos fins de semana, ia com a mãe trabalhar em um parque de diversões. Artisticamente começou sua trajetória ao estudar balé clássico e dança africana, além de teatro tendo se formado Uni-Rio.

Nos anos noventa o sacerdote católico tornou-se um fenômeno de mídia com mais de 11 milhões de CDs vendidos ao longo de sua carreira

Cantando, e dançando Rossi lotou missas e concedeu recordes de audiência em programas de TV onde sempre se dispôs a levar às pessoas a palavra de Cristo, razão pela qual foi reconhecido pelo papa Bento XVI em 2010 com o Prêmio Van Thuan como “Evangelizador do novo milênio”

Lançou em 2001o álbum “Paz”, pela Universal Music, atingindo a oitava posição entre os álbuns mais vendido daquele ano e por ele mereceu a indicação ao Grammy Latino de 2002, neste mesmo ano lançou o álbum “Anjos”, pela Sony Music, e foi o décimo quarto álbum mais vendido daquele ano

Em 2006 lançou o álbum “Minha Benção”, pela Sony BMG que foi o álbum mais vendido em 2006 e 2007, pelo feito recebeu a certificação de diamante e três de platina.

Em 2007 lançou “Momento de Fé para uma Vida Melhor”, o décimo segundo álbum mais vendido daquele ano, já em 2008 apresentou dois trabalhos  entre os mais vendidos “Paz Sim, Violência Não - Volume 1, e Paz Sim, Violência Não - Volume 2”, respectivamente o segundo e a sexto posição, mais vendidos daquele ano, por eles recebeu no primeiro caso platina dupla e tripla em 2008 e 2009  e no segundo platina tripla em 2009 mesmo ano em que o DVD “Paz Sim, Violência Não” (Volume 1), foi o mais vendido, de acordo com a  ABPD, recebendo a certificação de platina dupla.

No início da sua profissionalização Lafond passa atuar em boates e cabarés do Rio de janeiro, desde a Praça Mauá até Copacabana, costumeiramente abria os shows da meia-noite na boate Flórida, ao longo da noite passava pela boate Escandinávia, boate Barbarela e terminava a noite na boate Kiss, em Irajá, às 5h da manhã.

Depois disso por dez anos engrenou uma carreira no exterior viajando por Europa e Estados Unidos ao lado de Haroldo Costa que tinha uma Cia de Dança Folclórica

Em seu currículo constam participações no corpo de bailarinos do Fantástico em 1974, trabalhou no programa Viva o Gordo, de Jô Soares, em 1983 participou do especial infantil Plunct, Plact, Zuuum ao lado de Maria Bethânia e Aretha.

Em 1987 deu vida a Bob Bacall na novela Sassaricando, da Rede Globo, sendo posteriormente convidado por Renato Aragão para participar da nova formação de Os Trapalhões, após a morte do humorista Zacarias. Mas o sucesso só veio efetivamente quando encarnou a personagem "Vera Verão", que ia ao ar no A Praça é Nossa, do SBT, onde permaneceu por 10 anos, período em que fez também filmes e novelas.

Era figura “carimbada” como destaque das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, uma das poucas figuras masculinas a explorar a nudez durante a festa de “Rei Momo”, geralmente usando figurinos que o deixava seminu. Fez sua estreia totalmente nu, em cima de um carro alegórico da Escola de Samba G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense.

Você que chegou até esse ponto deve ter notado que tomos acima um resumo das trajetórias de Marcelo Rossi, sacerdote católico e Jorge Lafond, ator e dançarino, duas figuras emblemáticas em especial para quem viveu os anos noventa e completamente dispares, mas não somente pela direção de suas vidas, essencialmente por suas origens.

Enquanto o primeiro em sua condição de homem heterossexual, branco de classe média não enfrentou nenhuma dificuldade para ser aquilo que quis e quando quis, sempre gozou de extremo conforto por uma condição socioeconômica privilegiada apresentando pouquíssimos contratempos, o segundo foi homem negro e homossexual, candomblecista, de família pobre e periférica, teve dificuldades para sobreviver e estudar e essa diferença se espelhou na forma diferenciada como o mercado abraçou a ambos.

Essas figuras tão diferentes tem um elo para lhes unir, em 10 de novembro de 2002, Lafond foi convidado para participar do programa Domingo Legal, no SBT caracterizado como “Vera Verão”, pouco antes de sua entrada no Palco ele foi barrado a pedido de Marcelo Rossi que iria se apresentar. Após a referida apresentação, a produção teria insistentemente pedido que Lafond retornasse, pedido que foi recusado. Apenas um Mal entendido?

Em 17 de novembro de 2002, quando completou uma semana depois do incidente, Lafond precisou ser internado em estado grave devido aos seus problemas cardíacos, situação que teria como origem o seu histórico de depressão e o episódio durante o programa dominical como “gatilho”.

Após, já nas semanas que se seguiram o ator registrou diversas passagens, sendo a última em 28 de dezembro de 2002, com o agravamento de seu quadro por problemas renais.

Passados quatorze anos do ocorrido, o que mudou?

Uma pesquisa simples no Google indica que dados de 2016 a cada 28 horas um homossexual morre de forma violenta no Brasil, nessa mesma pesquisa de acordo com matéria de 2015 da “Agência Brasil” 600 travestis foram assassinados nos últimos anos, episódios que dão ao Brasil o título de campeão mundial de intolerância e o diagnóstico correto da “causa mortis” de Jorge Luís Sousa Lima, não ele não morreu por problemas cardíacos, não morreu por problemas renais, não, não foi o HIV, foi a homofobia, o racismo e a intolerância religiosa que enfrentou durante toda a vida e que desenhou esse quadro, a “causa mortis” dele é a mesma de centenas de homens e mulheres negros e/ou transexuais que ocorrem todos os anos. Vítima de um ódio travestido de amor, de uma fé com preconceito enrustido.

Fontes:
  • Disponível em: <http://migre.me/vS8O0> Acesso em 20/11/2016.
  • Disponível em: < http://migre.me/vS8OS> Acesso em 20/11/2016.
  • Disponível em: < http://migre.me/vS8QZ> Acesso em 20/11/2016.
  • Disponível em: < http://migre.me/vS8TJ> Acesso em 20/11/2016.
  • Disponível em: < http://migre.me/vS8WK> Acesso em 20/11/2016.

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