A Prisão de Boulos é declaração de guerra.

Por Leandro Aguiar

Vivemos uma conjuntura “sui generis” onde a direita está organizada, as facções criminosas (ainda que em rota de colisão) estão organizadas, mas a esquerda que é a base dos ditos movimentos sociais organizados não estão e a prisão relâmpago de Guilherme Boulos é um exemplo disso.

É evidente que a prisão foi política na medida em que a própria ação da reintegração de posse também é, mas a questão que fica no ar é a seguinte: “O que faremos com isso?”

Será que seguiremos abrindo mão dos vacilos que os governos dão para nos reorganizarmos? Notem a fraca e preconceituosa argumentação do comando do destacamento policial que esteve no local:

“...incentivou” os integrantes do movimento a lançar objetos contra a Polícia Militar. “Ele (Boulos) tem um nível sociocultural muito melhor que as pessoas que estavam ali. E ele usa seu nível sociocultural para ganhar pessoas, incentivá-las a arremessar coisas contra a polícia e morteiros. Morteiro é uma coisa grave. Já morreu gente com isso. Ele está colocando em risco a vida de pessoas”, disse o delegado, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

Uma afirmação no mínimo estranha na medida em que seria preciso que estivessem lado a lado para ele ter essa noção, algo improvável de se imaginar em uma situação de confronto físico, ou alguém acha que a tropa de choque foi ao local negociar? Sites de grupos conservadores e dirigentes políticos não demoraram em atribuir ao ato de hoje o “senão” de “vandalismo”.

A detenção trouxe consequências, manifestantes protestaram na região de Capão Redondo, Zona Sudoeste da capital Paulista, segundo o portal de notícias do grupo Estado um agrupamento com cerca de 20 pessoas ateou fogo em pneus e bloqueou o cruzamento da Avenida Carlos Caldeira Filho com a Estrada de Itapecerica, em frente à Estação Capão Redondo.

O líder do MTST considera que sua prisão foi inquestionavelmente política, informa que foi ao local negociar com o emissário do judiciário (Oficial de Justiça) que estava presente para oficiar que o Ministério Público havia pedido a suspensão da reintegração ontem (segunda-feira) e o juiz ainda não tinha julgado.

“Fui falar que seria razoável eles esperarem o resultado antes de reintegrar.”

Tenho diferenças com ele, mas certamente tenho mais acordos, é claramente uma liderança que constrói e essa é a razão central da prisão.

Uma medida que indica mais do que a criminalização aos movimentos sociais, mas a execução de medidas nesse sentido, tudo indica a configuração de um estado de exceção, quanto tempo mais vamos demorar para mobilizar? Quanto tempo mais vamos esperar para estabelecer uma frente? Até a resistência não ser mais possível?

Os episódios não são novidade para ninguém, me para ele próprio que afirmou em entrevista ao Sul21:

“São Paulo vai virar uma praça de guerra”, diz ele, antevendo que o novo prefeito irá usar a força para reprimir a luta pela moradia. “Doria disse que vai acabar com as ocupações. É próprio de alguém que nunca saiu do Jardim Europa. Ninguém pede licença ao prefeito para fazer ocupação”.

A direita tem a dimensão de seu papel de classe e ao prender o dirigente declara guerra contra a esquerda supostamente organizada.


10427341_754494814604347_8038451554430186122_nLeandro Aguiar é filho de Oxalufã e Airá,historiador, professor titular da rede estadual de São Paulo, demitido político de Geraldo Alckmin da greve de 2014 da Fundação CASA, foi um dos ativistas que empreenderam em São Paulo 92 dias da histórica greve por educação pública e de qualidade em 2015 e é editor do Projeto Escola dos Communs.

Deixe uma resposta