Alexandre de Moraes, sem mais…

Da Redação

A Falange Vermelha que posteriormente se tornou o Comando Vermelho tem uma história “romantizada” de seu surgimento à partir do contato dos presos comuns com os presos políticos durante os anos sessenta, há também o histórico de suas políticas de “assistência social” que faz  a comunidade abraçar o ‘comando’, com o PCC não tem nada disso, trata-se de um agrupamento que nasceu hierarquizado, espalhado em células e com uma estrutura em pirâmide de tal modo que está em constante formação de novas lideranças, e com isso tanto faz matar esse ou aquele ‘cabeça’, sempre haverá mais um para liderar o ‘partido’, também são mais pragmáticos e não tem essa de formar escudos humanos, o comprometimento se dá pelos ganhos de seus membros e pelo medo imposto nos locais onde se organizam.

No entanto apenas observar o conjunto dessas características não iria auxiliar entender a problemática, é preciso uma análise mais profunda no contexto que é produzido e obviamente existe uma diferença gigantesca se compararmos os anos 60 e 70 com o desenrolar dos anos 90 para os anos 10 ou 20 do século XXI, neste lapso de tempo podemos encontrar uma outra diferença que ajuda explicar não só a diferença entre CV e PCC, mas desta para as demais facções que se expressa essencialmente em seu alcance territorial.

A lógica dos ‘escudos humanos’ estabelecida pelos gerentes do CV não se explica somente pela troca de experiências com presos políticos, mas pela construção de um poder paralelo era parte do ideário de seus precursores concorrer com o estado ocupando os espaços que este não se fazia presente e com isso as comunidades mais carentes do Rio de Janeiro (seu estado de origem) virou território fértil para suas ações, eram bases estratégicas se considerarmos que o Rio é um imenso vale, uma lógica que permeia várias das facções deste estado.

Neste sentido por ser oriunda de um estado politicamente e economicamente bastante importante é compreensível também sua capilaridade e com isso a nacionalização de seus negócios, o PCC não concorre com o poder público, mas usando linguajar de cadeia, ele ‘corre’ com a institucionalidade.

O surgimento do PCC se dá curiosamente no mesmo período em que o PSDB se torna governo em SP, correlação direta? Nenhuma.

Contudo, são conhecidos os acordos de cavalheiros entre o governo do estado e os chefes de facção, em tempo, acordos estes que são muito facilitados pelo fato de que neste período inicial, os oito anos iniciais o PSDB também é governo em âmbito federal.

O período mais notório das relações entre PSDB e PCC foi o ano de 2006 quando este promoveram uma onda de ataques públicos efetivamente atemorizando a população e acossando a polícia militar que embora ‘muito valente’ com jovens negros e trabalhadores de periferia assistiram ao ‘Partido’ lhes colocar no bolso, e passaram pelo vexame de ser salvos por acordos extra oficiais de modo que cessaram os ataques.

Não seria estranho então supor que estas relações possam ir para além dos ‘meros acordos’, que hoje se faz até mesmo na Fundação CASA, para o bom andamento da “CADEIA” uma vez que os servidores que prestam estes serviços não estão lá em quantidade suficiente, não tem material adequado para se fazer um trabalho de ressocialização efetivo, são desvalorizados economicamente, e não tem o investimento de formação permanente necessário, tão pouco os trabalhadores terceirizados (ponha neste grupo os educadores profissionalizantes e arte educadores de Ongs e os professores categoria O), neste contexto os acordos garantem privilégios para os internos além daquilo que garante a lei  para não estourar a cadeia.

Este cenário que estamos vendo é o resultado destas políticas de ‘boa vizinhança’, tratam-se de governos que destroem os serviços públicos e os loteia para a iniciativa privada, retira investimentos de áreas essenciais para garantir os seus próprios privilégios além do pagamento das dívidas públicas e os lucros das empresas por meio de isenções fiscais precarizando a vida dx trabalhadorx médix que com as crises cíclicas do capitalismo perde com a inflação, arrocho salarial, estagnação econômica, recessão e a perca de direitos trabalhistas, políticos e sociais, estão dadas as condições para a formação dx suspeitx padrão: negrx, periféricx, baixa escolaridade, em muitos casos homossexual.

Obviamente que xs trabalhadorxs desse sistema não está alheio a estas condições gerais  com o agravante que acaba se prestando ao vergonhoso papel de fazer as vezes do estado para garantir a sua sobrevivência, pois em um contexto onde você junta marginalizados sociais e servidores desvalorizados não dá para imaginar que o convívio é pacífico e fazer “as vezes do estado” significa em última instância  se curvar a pressão dos seus superiores para a execução dos acordos manipulando dados, maquiando relatórios, escondendo ocorrências, afinal rebeliões não são boas, politicamente então são desastrosas.

E ai vejam só, temos um estado que criminaliza as populações periféricas e que lotam os presídios e unidades de socioeducação, desvalorizam e precariza as condições e xs trabalhadorxs entre os quais estes destes segmentos, fazem acordos para remediar uma vez que não cumprem minimamente aquilo que está na legislação no que tange os direitos elementares dos internos e com isso temos um ciclo vicioso que nunca se rompe.

É uma lógica que se retroalimenta e que serve de discurso político para a bancada da bala nacional, regional e localmente.

O que estamos vendo é teoria marxista clássica, os traficantes estão fazendo a disputa pela compra e distribuição da droga e com isso há o choque entre as grandes facções (CV e PCC) com aquelas de menor expressão e abrangência locais, e chegamos a este ponto graças a toda esta trajetória, um histórico que envolve acordos de benesses, mas também facilitação no trânsito de mercadorias, lavagem de dinheiro, financiamento de campanhas eleitorais e afins.

Este cenário Dantesco seria cômico se não fosse trágico e tem como cereja do bolo Alexandre de Moraes o ex-secretário de segurança do estado de São Paulo e homem de confiança de Alckmin como gestor deste processo, ou seria mentor?

O fato é que para solucionar o imbróglio formado é preciso efetivamente fazer a auditoria da dívida pública para que o seu pagamento seja cessado, é preciso se formular com o montante advindo dessa economia um grande programa de investimento em serviços públicos essenciais para com isso alavancar a economia e gerar empregas, a estatização de empresas de serviços estratégicos e por fim, mas não menos importante é preciso descriminalizar as drogas  e a desmilitarização das forças policiais, um programa bastante conservador se notarem que eu não falo daquele que seria o melhor dos mundos que seria uma drástica revolução social.

Algo impensável se ponderarmos que historicamente as revoluções nunca partiram do interior dos palácios em especial vivendo sob a governança de um executivo ilegítimo e que apenas faz aprofundar (substancialmente) os ataques que já estavam em curso e neste caso é preciso que a autoproclamada esquerda revolucionária estabeleça alguma unidade, com a participação dos centristas do PSOL e que PC do B e PT abracem o programa que não implementaram quando foram governo.

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