Crítica de arte: Eu, Encruzilhada!

Por Leandro Aguiar

Ontem sai de casa apenas para relaxar um pouco, andar e ver gente no entanto encontrei dois caras que nunca se conheceram, mas tem muito em comum, sai de casa para vê-los, mas não tinha a menor ideia dessa proximidade, talvez nem eles sabiam e menos ainda que se encontrariam.

O primeiro deles é nato de Franca interior de São Paulo e o seu berço irá definir muito daquilo que ele virá a ser ao longo da vida. Filho de uma doceira com um sapateiro sua condição socioeconômica menos favorecida e a negritude vão balizar suas escolhas.

Forma-se em contabilidade pelo Atheneu Francano (1929), aos 15 anos alista-se no exército e muda sua residência para São Paulo, em 1930 passa a integrar a Frente Negra Brasileira, em 1938 organiza o Congresso Afro-Campineiro, e em 1944 o TEM (Teatro Experimental do Negro através da qual constrói a convenção nacional do negro entre 1945/1946.

A convenção toma como políticas a constituinte de 1946 com políticas para os negros e propõe a criminalização do racismo

Funda o PDT (Mesmo no exílio) e forma sua secretaria de negros, é eleito deputado federal para o mandato de 1983 a 1987, tipifica o racismo, cria mecanismos de políticas de ação afirmativa, entre 1991 e 1999 já como senador mantém a mesma lógica.

Em meados dos anos 90 torna - se entre 1991 e 1994 Secretário de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro

Na qualidade de primeiro deputado federal afro-brasileiro a dedicar seu mandato à luta contra o racismo (1983-87), apresenta projetos de lei definindo o racismo como crime e criando mecanismos de ação compensatória para construir a verdadeira igualdade para os negros na sociedade brasileira. Como senador da República (1991, 1996-99), continua essa linha de atuação e entre 1999 e 2000 Secretaria Estadual de Cidadania e Direitos Humanos.

Honestamente? Pouco me interessa o seu currículo, se for analisar por ai iria cair na “esparrela” de boa parte de esquerda orgânica da contemporaneidade, na verdade me atrai em Abdias o seu comportamento e postura consequentes, Abdias pensava e atuava politicamente para e com o povo negro, construía elementos que iam para além do óbvio chegando não somente no lugar comum dos direitos sociais, mas percebendo a identidade dx “sujeitx” negrx em sua integralidade e para isso bebia na ancestralidade de seus orixás.

O improvável encontro na exposição “Ocupação Abdias do Nascimento” no Itaú Cultural se deve a consciência pesada dadas recentes gafes que reforçaram o estereótipo desleixado e relaxado dos negros, era preciso uma personagem forte e que estivesse no limite entre a transgressão e a institucionalidade dados os limites do que é o ItaúS/A, ainda assim Abdias foi maior, e mesmo o tendo conhecido passados seis anos incompletos de sua morte, Abdias é daqueles caras que seguem vivos através de sua obra, Abdias foi Exú.

Como o Itaú Cultural fica relativamente longe (fazendo o trajeto a pé) em relação ao meu destino aproveitei para caminhar um pouco e enquanto isso fui fazendo fotos no caminho como é bastante comum ali na Av. Paulista, encontrei bandas de Pop, Rock e Jazz, encontrei o “Roberto Carlos” e o “Michael Jackson”, encontrei praticantes de Parkour, pequenos cães outros enormes, até chegar na outra extremidade da Avenida em seu encontro com a Rua da Consolação. É lá que está hospedado o outro cara que mencionei no início do texto.

Daniel Blake é um homem comum, trabalhador braçal, sendo bem específico um carpinteiro que cuidou de sua esposa até o fim quando após convalescer morre, aliás bastante jovem. Depois disso fragilizado Daniel sofre um ataque cardíaco durante o trabalho e é desaconselhado voltar a trabalhar e aos cinquenta e nove anos, sem filhos e lutando contra a burocracia estatal se vê sem grandes perspectivas é ai que entram Katie e seus dois filhos Dylan e Daisy que obrigados a mudar de cidade para não ter que morar em um abrigo público em Londres vão para New Castle e acabam se apoiando mutuamente.

Em um contexto de desmonte das garantias mínimas fornecidos pelo estado brotam os sentimentos de carinho, afeto e solidariedade, Katie se tona a filha que ele não teve e seus filhos os netos, é no ambiente de falência do estado de bem estar social que brota aquilo que existe de pior na sociedade e ambos acabam por se expor a estas mazelas, no entanto é graças a ela que se descobrem.

Ocorre que Dan, o jovem idoso resistente as tecnologias só existe na cabeça do roteirista Paul Laverty e do Diretor britânico Ken Loach. Será? Se ele não é real, como é possível imaginar que Dan e Abdias já falecido se encontrariam?

Pra começar, apesar de ser uma personagem de um roteiro cinematográfico Dan é absolutamente real, todos nos conhecemos algumx “Dan”, homens e mulheres (sobretudo em tempos de crise política e financeira, em tempos de golpe institucional e retirada de direitos) que após uma vida lutando para se sustentar se veem nas mãos da institucionalidade e é justamente ai que se dá o encontro.

Eu tenho muito de Daniel e mais ainda de Abdias, essa profusão de sentimentos forma minha identidade e o encontro que parecia improvável de uma personagem ficcional com um brilhante homem, mas já falecido se deu em mim e a imensa sensação de pertencimento sentida em Abdias algumas horas antes passou a se misturar com o medo da solidão e a impotência emprestadas por Daniel Blake. De alguma forma Daniel e eu também somos Exú, somos todos caminho, somos todos encruzilhada.


10427341_754494814604347_8038451554430186122_nLeandro Aguiar é filho de Oxalufã e Airá,historiador, professor titular da rede estadual de São Paulo, demitido político de Geraldo Alckmin da greve de 2014 da Fundação CASA, foi um dos ativistas que empreenderam em São Paulo 92 dias da histórica greve por educação pública e de qualidade em 2015 e é editor do Projeto Escola dos Communs.

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