Eleições 2016 e o sexo dos anjos!

Por Leandro Aguiar

A definição em primeiro turno na capital paulista em 2016 nos leva a algumas conclusões, no entanto observar a conjuntura apenas pelo resultado da capital paulista é um reducionismo que não explica objetivamente a situação e por isso começo pela minha leitura do primeiro turno como um ponto de partida.

Em vinte textos busquei traçar um panorama das quatro candidaturas que estavam mais à esquerda do espectro político e sem sombra de dúvidas essa era a de Altino do PSTU, partido que infelizmente manteve-se isolado sem buscar ou permitir o diálogo com outras forças quase que absorto em sua construção como razão central de sua existência, postura similar a de Henrique Áreas que foi a expressão daquilo que seu partido o PCO é como regra dentro do movimento organizado e se manteve em seu universo paralelo, e por fim podemos falar de Erundina e Haddad, candidaturas que apesar de sua maior visibilidade optaram faz muito tempo pelo caminho da conciliação de classes e que explicam em parte o resultado do primeiro turno das eleições em São Paulo, mas também justificam o resultado das eleições em seu conjunto.

Com um pouco de atenção observaremos que de forma quase que generalizada os partidos da base “Temerária” de conjunto avançaram em termos quantitativos em termos de números de prefeituras este sim um dado que merece reflexão mais profunda.

Sim sabemos que as regras do processo eleitoral burguês limita a disputa, sim é verdade que a estrutura dos pequenos partidos não tem condições de serem competitivas fim de efetivamente conseguir incomodar as agremiações maiores, sim é verdade que o tempo de rádio e TV é desigual e muitas vezes as pessoas nem chegam à tomar conhecimento de boa parte das candidaturas, mas ainda assim é preciso pensar na forma como ocorreu a última disputa em especial, essa não foi uma eleição quaisquer e indicou aquilo que enfrentaremos nos próximos anos, mas principalmente a forma que enfrentaremos.

Nacionalmente o petismo amargou dura derrota perdendo mais de dois terços das cidades que estavam sob seu controle, principalmente a maior delas, mas chama a atenção neste cenário o total de votos nulos, brancos e abstenções.

Em sua divulgação oficial o TSE divulgou que cerca de 25 milhões de eleitores simplesmente não compareceram às urnas no 1º turno das eleições municipais, foram 17,58% de abstenções em especial em nove capitais onde o número de votos brancos, nulos e de eleitores que não compareceram foi maior do que do candidato que ficou em primeiro lugar algo significativo e ai precisamos fazer a análise adequada quanto à eleição de João Dória.

O eleitorado paulistano segundo o TSE está em 8.886.195 pessoas, se considerarmos que cerca de 3.096.304 se abstiveram, anularam ou votaram em branco, ou seja, 34,84% dos votos, e analisarmos estes como votos válidos na medida em que se recusaram em votar então os 53,29% de João Dória serão fictícios, objetivamente foram 34,71% dados diretamente para o candidato tucano, e mesmo somados todos os votos dados para os candidatos situados mais à direita do espectro político o percentual não superaria os 52.13%, restando aproximadamente 1.156.924 ou 13.019% para os candidatos de esquerda.

Então em uma conta honesta 47,86% dos eleitores recusaram conscientemente João Dória para o cargo de prefeito da cidade um quantitativo basicamente localizado nas periferias, e neste contexto podemos sim avaliar a ação dos grandes meios de comunicação e as manipulações eleitorais e ao fazê-lo colocar dúvida sobre o total de eleitores que de fato apoiam ao PSDB dentre estes que votaram nele.

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Publicado originalmente no Portal G1
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Publicado originalmente no Portal G1

Quantos fariam tal opção se tivessem a possibilidade de conhecer mais profundamente as propostas de Erundina, Altino e até mesmo do fraco Henrique considerando o descontentamento com o petismo o envolvimento quase que endêmico de sua cúpula em casos de corrupção?

Uma análise que pode ser estendida para várias outras capitais brasileiras, segundo matéria da EBC além de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Belém (PA), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS) e Aracaju (SE) também tiveram mais votos inválidos do que o primeiro colocado nas eleições.

Aracaju (SE)

Eleitores: 397.228

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 139.723

1º lugar: Edvaldo Nogueira (PCdoB) 99.815

Belém (PA)

Eleitores: 1.043.219

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 365.731

1º lugar Zenaldo Coutinho (PSDB) 241.166

Belo Horizonte (MG)

Eleitores: 1.927.456

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 741.915

1º lugar João Leite (PSDB) 395.952

Campo Grande (MS)

Eleitores: 595.172

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 167.922

1º lugar Marquinhos Trad (PSD) 147.694

Cuiabá (MT)

Eleitores: 415.098

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 127.987

1º lugar Emanuel Pinheiro (PMDB) 98.051

Curitiba (PR)

Eleitores: 1.289.204

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 360.348

1º lugar Rafael Greca (PMN)356.539

Porto Alegre (RS)

Eleitores: 1.098.517

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 382.535

1º lugar Nelson Marchezan Júnior (PSDB) 213.646

Porto Velho (RO)

Eleitores: 319.941

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 106.844

1º lugar Dr Hildon Chaves (PSDB) 57.954

Rio de Janeiro (RJ)

Eleitores: 4.898.044

Soma de votos brancos, nulos e abstenções: 1.866.621

1º lugar Crivella 842.201

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Publicado originalmente no Portal G1

Essa analise, porém não pode se encerrar aqui, se por um lado houve uma forte rejeição concreta ao PSDB, houve proporcionalmente uma rejeição ao PT, numericamente 52,14%, ou seja, ligeiramente maior indicando sim uma divisão social, indicando sim uma falsa polarização, e falsa por que nenhum dos dois polos aparentes tem apoio suficiente para “surfar nessa onda” demonstrando que existe um vácuo ideológico que justifica a análise acima, um vácuo que também é responsabilidade da chamada “esquerda revolucionária” que não articula de tal modo a estabelecer um programa capaz de garantir uma frente única que estabeleça um terceiro campo e que seja de fato uma alternativa aos trabalhadores.

Nessas condições culpabilizar o povo pobre e trabalhador pela eleição de “A ou B” significa não somente generalizar para a classe uma responsabilidade pelo vácuo político que pertence as correntes como também reproduzir o discurso da burocracia que leva-nos a acreditar que é possível ‘fazer a revolução’ por dentro da superestrutura pública um debate que leva a pensar nos caminhos que o PT vem construindo desde meados dos anos 90, mas principalmente nos últimos 13 anos período que abrange os quatro governos de Lula/Dilma e também a fazer um paralelo com a gestão Haddad na cidade de São Paulo.

Lula e Dilma e a conexão com Fernado Haddad.

Em meio a uma crise econômica importante com índices negativos e uma postura afável diante do mercado em 2002 Lula vencia FHC que passava o bastão apara Lula como a 13º economia global, uma queda importante que tomava como medida de referência as reservas em dólar, para se ter uma ideia , FMI o Brasil chegou a ocupar o 6º em 2011, uma posição diante da Grã-Bretanha.

Atualmente na 9ª posição de acordo com esse indicador tendo ocupado entre a 7ª e 8ª posições de acordo com a grande imprensa, sobre isso declarou a site da BBC Brasil Alessandra Ribeiro, economista da Consultoria Tendências "No caso do PIB, o que comprometeu o resultado dos anos do PT no poder foi de fato a gestão Dilma - e em especial seu segundo mandato".

Para Alessandra o crescimento do governo Lula quando o país chegou a crescer 7,5% em 2010, e com isso garantiu a expansão do PIB em média 2,9%, contra 2,5% da média do governo Fernando Henrique Cardoso.

Especialistas atribuem ao insucesso das políticas econômicas de Dilma a recessão deste ano, as chamadas ‘consultorias independentes’ esperam para este ano uma retração do PIB de 4%, a média cairia para 2,4%, ou seja, em patamares próximos ao da “ERA FHC”.

Obviamente que tais especialistas não consideram os efeitos da crise de 2008 para tal análise, não mencionam que Lula se beneficiou entre 2003 e 2007 de uma onda cíclica de expansão do capital internacional, não mencionam que ele retardou os efeitos da crise com políticas de expansão do crédito para que através do mercado interno a crise fosse diluída e com isso o consequente endividamento dos trabalhadores além de fazer concessões de benefícios fiscais aos grandes capitalistas como, por exemplo, a desoneração do IPI da chamada “linha branca”.

Não mencionam que ele estruturou um corpo de políticas compensatórias, como o Bolsa Família, e que com isso manteve sob controle os setores mais precarizados da população e que contou com a benevolência de CUT e MST que passaram todos estes anos poupando ao “companheiro” que já havia se demonstrando confiável ao mercado financeiro quando publicou a “Carta ao Povo Brasileiro” e ao indicar para sua equipe “gente de mercado”

Essa interpretação é importante por uma razão bastante simples, coube a Dilma fazer o trabalho sujo de aprofundar os cortes de direitos para fazer com que o conjunto dos trabalhadores pagasse a conta da crise de 2008 e nesse sentido Dilma foi brilhante ao manter as diretrizes originais que garantiram a eleição de Lula mesmo que com a forte pressão que emanava das ruas em junho de 2013.

Dilma virou as costas categoricamente para estudantes e trabalhadores que aos milhões ocuparam as ruas de norte à Sul do país pedindo muito mais que 0,20 centavos, pediam, educação, saúde, saneamento básico, lazer...

Concretamente a segunda oportunidade que o “Lulismo” teve de dar um giro à esquerda após a onda de otimismo do início de seu mandato, aquele era um momento em que a juventude assumindo o papel de vanguarda e gradativamente sendo abraçada pelo proletariado que também ia para as ruas Dilma poderia ter dado uma “banana” para a burguesia que ali já estruturava o golpe, essas ruas que pulsavam mudanças, que emanava disposição de luta eram campos minados onde os lutadores esquerdistas (comunistas e anarquistas) se confrontava com grupos de extrema direita e aquele que poderia ser o Start de um ascenso revolucionário se tornou o ventre do retrocesso e praticamente definiu a queda de seu governo.

Seria no mínimo impreciso dizer que foi neste momento em que se estabeleceu o elo entre Lula/Dilma e Haddad posto que o atual prefeito paulistano é cria do “Lulismo”.

Ainda como estudante filiou -se ao PT em 1983 e passou a ocupar o cargo de tesoureiro de tesoureiro do Centro Acadêmico XI de Agosto, entidade representativa dos estudantes do Largo São Francisco.

Foi analista de investimento no Unibanco, mas em 2001 assumiu como subsecretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico da cidade de São Paulo na gestão de Marta Suplicy, posteriormente foi assessor especial do Ministério do Planejamento e Finanças na gestão Guido Mantega (2003-2004) e em pouco tempo migrou em uma carreira meteórica para trabalhar ao lado de Tarso Genro, então ministro da Educação, como secretário-executivo deste ministério.

Em 2005 em meio à crise do Mensalão assumiu como ministro mantendo-se no cargo durante o governo Dilma, Haddad deixou o cargo em 2011 como aposta de Lula para a corrida municipal em São Paulo.

Mas foi em dois mil e treze que esse elo ganhou cores vivas, foi em dois mil e treze que Haddad depois de ser eleito com ares de novidade deixou claro para quem ia governar. 2013 é simbólico para toda a classe política e principalmente para todos nós que estamos submetidos a esse processo.

Assim como Dilma Haddad teve a oportunidade de se diferenciar da tucanalha recuando no aumento, teve a oportunidade de passar a governar com essa massa e á partir da periferia. Não o fez...

Já que falamos de emblemas, chama a atenção alguns elementos ressaltados pelo cientista político da FESPSP Rafael Castilho  em uma análise publicada em seu Facebook, por exemplo, a quarta colocação do atual prefeito em regiões como Guaianazes, Perus Parelheiros e Grajaú, ainda mais significativo é a informação de que seu maior percentual de votos tenha ocorrido, em Pinheiros com 24% dos votos seguido da região de Bela Vista em segundo, com 22% ficando atrás inclusive de Marta Suplicy passados 12 anos do fim de sua gestão.

Ao longo de sua gestão criou-se uma espécie de “bolha” que o isolou do mundo real, concordo quando o professor diz, “criou-se um consenso inútil, do ponto de vista politico, que a sociedade não estava preparada para Haddad, o eleitorado não merecia Haddad, a classe política não estava a altura de Haddad, a classe média era quem degradava Haddad”.

Que mundo é esse em que vive o prefeito e os seus “apêndices executivos”? Em qual análise minimamente razoável é compreensível o desgaste frente a alguns milhões que ocupam as ruas contra o aumento da tarifa dos transportes e projetos como as ciclovias e a redução da velocidade dos automóveis associadas á polêmica dos radares?

Quando o Professor Rafael diz que ante o momento político São Paulo “se configurou num grande barril de pólvora” ele quer indica que pela importância política da cidade tanto por seu tamanho geográfico, densidade populacional e orçamento, mas principalmente pelo movimento organizado temos aqui uma trincheira, cujas peculiaridades não foram observadas pelos petistas e é esse o ponto onde discordo da análise do consistente analista, nacional, local e regionalmente em primeiro lugar o PT vendeu sua alma ao demônio basta ver alguns dos partidos que compuseram esta base PV, PP, PMDB, PSB, PTB, PSD entre outros, em segundo lugar o não combate aos oligopólios de mídia e interesses de grandes corporações, principalmente devido ao fato de terem suas campanhas financiadas por estas mesmas instituições, e em terceiro lugar o fato de não construírem quadros políticos, algo que neste caso quase que se torna intrínseco a atuação de base nos sindicatos e nos movimentos sociais algo que não ocorre nas gestões petistas devido ao fato de que esta base social em que ele ainda é bastante forte converteu-se em massa de manobra.

E só para dizer que não falei das flores...

Neste último item é preciso se fazer um “mea culpa” (nós da esquerda dita revolucionária), qual foi nosso papel efetivamente na construção do tal “terceiro campo”?

Honestamente não notei uma ação efetiva para além de nossas bases, todos de certa forma deixamos a direita preparar a terra, semear, irrigar e colher os frutos sem resistência e se não acordarmos imediatamente não haverá mais tempo útil.

Enquanto falamos do mesmo com os mesmos o PSDB e a direita avançam e é preciso de uma vez por todas tomar vergonha na cara principalmente a CUT e o MST, uma vez que a aventura eleitoral do PT naufragou nacionalmente o papel agora é o articular as bases e impedir que Temer, Alckmim, e Dória governem e implementem minimamente qualquer medida, é mais do que premente deixar de lado a dicotomia Eleições Gerais X Constituinte e centrar fogo na construção da greve geral do contrário veremos em pouco tempo Bruno Covas na prefeitura, João Dória no governo do estado e Alckmin na presidência.

Sim o PSDB formando quadros enquanto nós discutimos o sexo dos anjos.


10427341_754494814604347_8038451554430186122_nLeandro Aguiar  é filho de Oxalufã e Airá, historiador, professor titular da rede estadual de São Paulo, foi um dos ativistas que empreenderam em São Paulo  92 dias da histórica greve por educação pública e de qualidade é editor do Projeto Escola dos Communs.

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