Em tempos de Temer: “Cada terreiro um Quilombo!”

Ao voltar para casa hoje li duas matérias acerca da questão da tolerância religiosa, respectivamente "Centro espirita é depredado em Teresópolis e mãe de Santo acredita em Intolerância": Foi criminoso"  e "Combate à intolerância religiosa é tema da redação do Enem 2016" que me chamaram a atenção, e me remeteram a um artigo do Jornalista e professor da UFF Felipe Pena que tomei contato através da querida Eliana Frazão.

Felipe que se diz “católico não praticante” se propõe escrever algo que ele chama erros da “esquerda” que “levaram o eleitor a uma perigosa guinada à direita” e apesar do tema levantado por ele ser diferente em principio vou começar me utilizando deste artigo para embasar meus argumentos que espero aprofundar em uma série que pretende fazer uma análise de conjuntura agregando medidas como a PEC 241(55/2016), reformas, o Golpe institucional vigente e os rumos da esquerda.

Sob o argumento de que o medo de Cuba nos levará ao Irã transformando o Brasil em uma República Teocrática o articulista levanta alguns dados e questionamentos que nos interessam muito, segundo Pena o projeto de poder da Igreja Universal existe há duas décadas e fora publicizado em um livro de autoria de Edir Macedo e Carlos Oliveira cujo título era: "Planos de Poder", mas esse é somente o primeiro ponto, no escrito ele ainda indica a compra de fuzis automáticos em grande quantidade pela Igreja Universal ligando o fato à criação dos “Gladiadores do altar” uma milícia ligada a esta instituição religiosa, ressalta a atuação conjunta destes com as bancadas ruralista e da Bala (BBB), e fala  das articulações realizadas para que um dos seus ocupem a presidência e mais que isso buscam a sua legitimação de sua atuação mesmo que por vias marginais com a  nomeação de ministros do STF no intuito de barrar as pautas das minorias e impor sua própria agenda religiosa.

Para bom entendedor os elementos acima já deixam claro aquilo que tenho a dizer sobre o tema e por isso vou além.

Trata-se de um erro associar o Petismo ao Comunismo, concretamente apesar da crise pela qual passa o PT representa o maior partido social democrata brasileiro, e nesse momento colhe os frutos dos descaminhos que construiu nos últimos vinte anos, curiosamente o mesmo período de gestação do “Comandante Macedo”.

Considero descaminhos a opção por em detrimento de bandeiras históricas como a estatização do sistema Bancário, valorização dos servidores e trabalhadores em geral, construção de um governo para os trabalhadores, diminuição da mais valia para recuperação do poder aquisitivo da classe trabalhadora, e suspensão do pagamento da dívida externa entre outros, em saídas que levaram ao PT aceitar financiamento de amplos setores da grande burguesia, bem como alianças eleitorais com denominações como PMDB, PTB, PP, PL (em 2006 deixou de existir se fundindo com o PRONA para criação do PR), PPS, PSB, PC do B, PSC, PV e PSL, sob a lógica da governabilidade foram feitos acordos com bancadas como a evangélica que está diluída por todos esses partidos e em condições que fortificaram esses setores que através do uso da máquina pública levaram ao surgimento de figuras como Eduardo Cunha e à construção do cenário Dantesco que estamos presenciando com início em meados de 2008 com o estouro da crise nos Estados Unidos e Europa “contornada” por Lula e posteriormente Dilma com medidas de isenções fiscais para o empresariado e cortes em investimentos sociais ligados a reforma agrária, construção de creches, combate às drogas inclusive o Bolsa Família, também foram tomadas medidas de elevação do crédito bancário para endividamento dos trabalhadores sob a justificativa de fomento ao mercado interno para superação da crise.

Ao dar as costas para tudo isso Lula/Dilma deu as costas para todo o movimento sindical, estudantil, movimentos sociais como mulheres, LGBTTs, e ao povo de Santo que fez campanha por sua eleição e que sim esteve nas ruas em 2013, estávamos lá na condição de trabalhadores, estudantes, ativistas de movimentos sociais enfrentando as polícias militares estaduais e a extrema direita nazifascista através de grupos neonazistas financiados pela oposição de direita na prática o germe de movimentos como o MBL de Fernando Holiday (DEM) eleito vereador em São Paulo, cujas principais propostas são acabar com as cotas para negros em concursos públicos municipais e revogar o dia da consciência negra na cidade de São Paulo.

Nesse contexto o “perigoso giro á direita” do eleitorado nada mais é do que uma combinação de fatores que passam pela crise de 2008, a ausência de respostas para as demandas que eclodiram em Junho de 2013 todas elas permeadas pela guinada à direita do próprio PT, e conforme diz o velho “dito”, como “não há espaço vazio na política” este o foi pela direita mais reacionária que foi “financiada sim com dinheiro público” vindo do fundo partidário e que vão para os cofres das organizações que colocaram o golpe nas ruas, através da isenção fiscal dado para igrejas, através das concessões públicas de rádio e TV, que viram fuzis nas mãos das milícias de Edir Macedo, que viram propaganda de agitação para milhões de trabalhadores que na ausência de outras fontes de informação e alternativas concretas e consequentes das organizações de esquerda são cooptados, portanto não se enganem com qualquer reflexão mais profunda que poderia ser suscitado ou uma sinalização em virtude do ENEM 2016, os retrocessos que já foram muitos historicamente apesar de parcas e pequenas concessões nos governos petistas tendem a se tornar mais agudos, com a máquina de uma prefeitura com a do Rio de Janeiro Crivella irá valorizar “seu passe” em uma chapa para eleições em 2018 talvez até como candidato (se houverem eleições) e pautas como a revogação da lei 10.639 ou sua inviabilização por meio de projetos de lei “escola sem partido” bem como a reforma do ensino médio vão voltar à tona, a hipócrita proibição do sacrifício de animais em rituais (medida que inviabilizaria a prática do candomblé)  daqueles que se propõe como seus defensores mas não combatem os grandes abatedouros de frigoríficos e pecuaristas também vai voltar ao debate, uso de subterfúgios como o “psiu” ou até o uso de indumentárias e adereços imprescindíveis aos nossos preceitos não estão descartadas, isso significa em essência não somente ser conivente à ataques a filhos de Santo e terreiros, mas essencialmente na institucionalização destes ataques com perseguição e criminalização dos seus adeptos.

Sim irmãos e camaradas houve uma época em que debater política foi uma opção, mas hoje não é mais e para nós em especial, ser de asè hoje significa ter de debater política por necessidade de sobrevivência, somos celeiros de homens e mulheres negr@s, celeiros de Gays, transgêneros e não passaremos incólumes pela ascensão de setores que nem de longe representam o conjunto dos evangélicos ainda que representem o setor mais proeminente e que além de uma milícia armada possuem um partido político e os aparatos de 104 prefeituras incluindo uma grande capital.

Sinto-me um alvo em potencial, transformemos nossos terreiros em Quilombos,e que cada um de nós seja a resistência e que a nossa fé na justiça divina que emana dos Oxês de Babá Xangô nos acompanhem nessa jornada de resistência contra o Racismo religioso da teologia da prosperidade símbolo de um liberalismo que nunca nos aceitou...É hora de reviver Palmares!

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