O PT é o maior culpado pela eleição de Eduardo Cunha; quem mandou ignorar os movimentos sociais?

Vi este texto casualmente através de um compartilhamento do companheiro Gilberto Maringoni  do PSOL e achei brilhante.  Laura Capriglione, foi precisa e incisiva com palavras que não poderiam receber outro nome que não sejam cirúrgicas e por isso não consegui evitar e tomei a liberdade de reproduzir com os devidos créditos no Escola dos Communs.

Ao analisar o episódio a autora consegue mostrar aquilo que é evidente e que assustadoramente tende a ficar pior dentro de um panorama em que o congresso é ainda mais conservador e caricato que sua média histórica.

Leia abaixo a integra do texto publicado originalmente no Blog da Laura  Capriglione

Por Laura Capriglione

Grande derrotado na eleição em primeiro turno do novo presidente da Câmara dos Deputados, o Partido dos Trabalhadores precisa olhar para o espelho e, em vez de ver ali a vítima, reconhecer o principal culpado –ele mesmo.

Não poderia haver representante mais adequado a uma Câmara dos Deputados apequenada por interesses mesquinhos, e a serviço de mega-financiadores de campanha, do que o negocista Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o eleito.

Mas ele é a consequência natural da tal governabilidade a todo custo, defendida com unhas e dentes pelo alto comando petista. E que levou o partido nascido das lutas operárias e estudantis dos anos 1970 e 1980 a um distanciamento sem precedentes dos movimentos sociais.

É que, para não desagradar aliados ruralistas, o PT rifou a luta pela Reforma Agrária e pela demarcação das terras indígenas; para não melindrar a bancada evangélica, o partido colocou em banho-maria a criminalização da homo e da transfobia (Dilma só se lembrou disso na campanha do segundo turno). Descriminalização do aborto, lei de drogas, desmilitarização das Polícias Militares, reforma urbana… o PT fugiu de todas essas raias, abandonando os movimentos sociais à própria sorte, enquanto colocava todas as suas fichas nas articulações com os caciques partidários.

A descaracterização a que o PT se obrigou em nome da governabilidade levou o partido, que já encarnou os melhores sonhos da juventude, a esgotar seu capital simbólico de agente transformador progressista. Confundiu-se com os “300 picaretas” que já denunciou.

Logo depois de abertas as urnas no ano passado, dizia-se que o país elegera o congresso mais conservador desde o fim da Ditadura Militar. Como poderia ser diferente, se o principal partido de esquerda havia baixado suas bandeiras históricas e colocado todas as fichas para eleger oportunistas, como o ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez?

A direita ganhou a maioria da Câmara por W.O.

O PT não apareceu para jogar ou chegou atrasado.

Eduardo Cunha, o presidente da Câmara dos Deputados agora eleito, é produto dessa infeliz safra, uma caricatura de político conservador com viés de fundamentalista religioso. Denúncias de corrupção contra ele há aos magotes, desde que foi presidente da Telerj, a companhia telefônica do Rio de Janeiro, ainda no governo de Fernando Collor.

Em 2010, debochado, apresentou o projeto de criminalização da “heterofobia” e de criação do “Dia do Orgulho Hétero”. Como se os heterossexuais fossem atacados e assassinados como acontece diariamente com gays, lésbicas e transgêneros… Escárnio.

Também é autor de projeto de lei que prevê pena de 6 a 20 anos para médico que realiza aborto, além da cassação do registro profissional. “Estamos sob ataque dos gays, abortistas e maconheiros”, fantasiou.

Para atrair as simpatias dos grandes grupos de comunicação, Cunha declarou-se contrário a qualquer forma de regulamentação da mídia. Para brecar a reforma política, defende —cara-de-pau— o financiamento privado de campanha.

Pudera! Em 2010, ele recebeu R$ 4,76 milhões para fazer sua campanha, dos quais R$ 500 mil vieram da empreiteira Camargo Corrêa; outros R$ 500 mil da Usina Naviraí de Açúcar e Álcool.

Em 2014, Cunha prosperou. Seu comitê de campanha embolsou R$ 6,83 milhões de empresas como oShopping Iguatemi, Bradesco, Líder Táxi Aéreo, Santander, BTG Pactual, entre outros.

Os jornais já se assanham em prognosticar os próximos passos do minueto sinistro. O PT, que já entregou os anéis, dará dedos, mãos e pés, em prol da governabilidade, já que Eduardo Cunha, como presidente da Câmara, apossou-se das chaves para abrir um eventual processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (com ou sem motivo).

Mas dar os anéis, dedos, mãos e pés significa descaracterizar ainda mais o partido, mesclá-lo totalmente ao lixo político que a juventude rejeita e que presta um desserviço às causas da igualdade e da liberdade.

Um outro rumo é possível, as ruas estão mostrando, mas exige a coragem que a direção do partido parece ter perdido. Coragem de tentar restabelecer o contato com sindicalistas, ativistas sociais, sem-terra, juventude, movimentos de mulheres, de direitos humanos, lideranças indígenas, sem-teto. Porque, se a Câmara foi para o brejo, o país não foi. Ainda.

Só para lembrar, uma Igreja Católica desmoralizada pela intolerância com o mundo moderno, peloshábitos ostentatórios, por uma saraivada de escândalos de corrupção e pedofilia, pelodesânimo dos fiéis acossados pelo avanço neopentecostal, mostrou-se capaz de reação, ao contrariar a Cúria Romana e eleger o papa Francisco, depois da renúncia de Bento 16.

Com seus 2.000 anos de sabedoria e sobrevivência política, a Igreja Católica sabe que às vezes é preciso mudar, ainda que seja um pouco, para não perecer.

Laura Capriglione, 54, é jornalista. Nasceu em São Paulo e cursou Física e Ciências Sociais na USP. Trabalhou como repórter especial do jornal “Folha de S.Paulo” entre 2004 e 2013. Dirigiu o Notícias Populares (SP), foi diretora de novos projetos na Editora Abril e trabalhou na revista “Veja”. Conquistou o Prêmio Esso de Reportagem 1994, com a matéria “Mulher, a grande mudança no Brasil”, em parceria com Dorrit Harazim e Laura Greenhalgh. Foi editora-executiva da revista até 2000.

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