“O Racismo religioso e os descaminhos do povo de santo, siga à esquerda.”

Eu sempre fico em dúvida sobre como abordar determinados temas na medida em que ocorrerão muitas abordagens com “verdades absolutas” tanto daqueles que se julgam mais oprimidos que os outros, como daqueles que se acham no direito de falar pelos oprimidos com maior propriedade sem considerar que ao fazer isso estão reproduzindo a lógica da marginalização desses indivíduos. O dia da consciência negra é um desses, em especial em um contexto de polarização de setores da burguesia, e aprofundamento da fragmentação da esquerda socialista que se mostra incapaz de dar uma resposta adequada ao conjunto dos trabalhadores para os múltiplos ataques que diariamente se avolumam, foi quando fui marcado pela Cris Real assistente social do CENSE (Instituição similar a Fundação CASA no PR) em um post relativo a mais uma manifestação de intolerância religiosa contra os “não cristãos” em especial, contra as religiões de matriz africana.

O Post não foi feito propriamente pelos agressores, era uma crítica dos irmãos da “Casa de Oxumarê” as manifestações públicas do pregador Ironi Spuldaro veiculadas pela Rede Católica de Rádio e televisão Canção Nova, veja abaixo a íntegra com a manifestação de repúdio ao referido doutrinador:

DISCURSO DE ÓDIO E INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NA CANÇÃO NOVA.

Hoje (15/11) no maior canal católico de evangelização do Brasil - Canção Nova, o pregador Ironi Spuldaro, fez um discurso de ódio e de intolerância religiosa as religiões de Matriz Africana (Candomblé e Umbanda), fora o discurso HOMOFÓBICO. Os documentos da Igreja e mesmo o Papa Francisco, frequentemente vêm dando-nos testemunho de diálogo ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO. Em tempos em que somos chamados e impulsionados ao diálogo com as religiões cristãs e não-cristãs e acolher a todos aqueles que vivem diferentes de nós, é muito complicado alguém pregando ódio. Por que o discurso de ódio? Todos nós não somos filhos do mesmo Deus? Deus é misericórdia! Não importa o nome que é dado a Ele ( Javé, Jeová, Alá, Olorum...) Creio que a Canção Nova deveria selecionar seu palestrantes para que não entre em um grande processo. Um cara desses, com todo respeito a ele, não pode assumir um programa de TV Católico. Devemos respeitar a todos independente da maneira de pensar. Isso pode ser motivo de cadeia. por favor. Pés no chão! - Frater Ângelo Rodrigo.

A trajetória de  Ironi Spuldaro.

Segundo o site da Emissora católica Spuldaro, nasceu em 23 de Janeiro de 1966, na cidade de Chopinzinho (PR), e durante 17 anos trabalhou como funcionário da Fundação Nossa Senhora de Belém, em Guarapuava (PR); nos últimos sete anos, ocupou o cargo de Diretor Geral de duas emissoras de rádio - AM 560 e FM 93,7, ambas de propriedade desta fundação uma instituição patente doutrinação católica.

Ele agrega as funções de membro do CAE (Comissão de Ação Evangelizadora) da diocese de Guarapuava, membro do conselho diocesano, estadual e nacional da RCC (Renovação Carismática Católica) movimento do qual se diz integrante faz 25 anos.

O texto de apresentação informa que Spuldaro foi coordenador do Grupo de Oração 'Caminhando com Jesus e Maria' durante 6 anos e coordenador da Renovação Carismática Católica (RCC) na cidade de Guarapuava por 4 anos,  atuou como coordenador da RCC na diocese de Guarapuava durante 3 anos e 6 meses e coordenou o Ministério de comunicação da RCC (PR) por 4 anos.

Segundo os carismáticos Ironi também performou como coordenador estadual da RCC(PR) por 4 anos e esteve à frente da comissão nacional de finanças da RCC(BR) junto a CNBB sul II, de todos os movimentos do Estado do Paraná durante 2 anos.

Foi coordenador dos amigos e amigas, na cidade de Guarapuava, do Grupo de Oração 'Caminhando com Jesus e Maria', grupo a qual segue vinculado.

Atualmente exerce o ministério de pregação em todo o Brasil extrapolando suas fronteiras para países como  Argentina, Paraguai, Bolívia, Estados Unidos da América, Itália, Japão, Inglaterra e Suíça.

Ironi Spuldaro  é autor das obras:

- Livros:

  • Há Poder de Deus
  • Libertos de Todo Mal
  • Passos para uma Vida de Oração
  • Manual de Oração Há Poder de Deus

- CDs e DVDs:

  • Coletânea Há Poder de Deus, com 4 cd`s
  • DVD e CD - Há Poder de Deus
  • DVD e CD - Rosário do Espírito Santo

Apresenta o Programa 'Há Poder de Deus'. Spuldaro é Diretor-Presidente da empresa Christus Dominus, de artigos religiosos.

Dito isto quero dizer que pouco me importam os “feitos” deste Senhor, no entanto penso que algumas diretrizes são necessárias para abrir esse debate e enveredar pelo caminho correto.

Em primeiro lugar precisamos conhecer de quem estamos falando, o papel que ocupa e principalmente o seu alcance, e em segundo lugar é preciso estabelecer uma crítica política na medida em que apesar da forma seu posicionamento é político, por mais estranho que isso possa parecer, e não é preciso ir longe para fazer essa caracterização, mas é preciso entender um pouquinho de história.

Irmãos, irmãs e camaradas com alguma lucidez e frequência em suas aulas nessa disciplina, não é difícil ao rememorar a intervenção de qualquer professor minimamente consequente principalmente, em específico aquelas da 5ª série ou mesmo 1º ano do ensino médio ao tratar-se da formação dos primeiros povos constatar que religiosidade e fé sempre fizeram parte da constituição cultural humana, mesopotâmicos, Fenícios, Gregos, Astecas, Incas Maias, Jejes, Nagôs, enfim, povos inteiros estabeleceram suas relações com o meio e entre povos com base entre muitas outras coisas em sua fé, alguns dos mais recentes modais estão as religiões monoteístas Judaica, Islâmica e Cristã e é exatamente por ai que quero começar.

Já estávamos lá, os curandeiros, benzedeiras, sacerdotes e sacerdotisas de diversas matizes já estavam lá quando os Padres chegaram, perto de Oxalá Jesus Cristo não passa de um Púbere que nem “mal saiu das fraldas”, ainda assim o Cristianismo se impôs correspondendo atualmente a cerca de 32% dos ocupantes do planeta terra ou 2 bilhões e 900 mil pessoas em números absolutos aproximadamente, e sinto dizer, mas não chegaram a este posto graças aos “milagres de Deus”, mas foi fazendo política, Católicos e protestantes (evangélicos) se associaram aos governos das principais potências econômicas da Europa e Estados Unidos ao longo de sua formação, constituíram-se como estados, se associaram aos grandes capitalistas para defender aos seus interesses e com isso se estabeleceram, algo muito parecido com aquilo que contemporaneamente fazem os Islâmicos que já contam com indicativos que levam a crer em uma maior presença deles no “mercado mundial da fé”.

No Brasil, Católicos e Evangélicos se garantem pela supressão diária de quaisquer outra manifestação de fé e o fazem através de superestruturas bancadas pelas polpudas contribuições de seus fiéis, mas não somente isso, fazem com base na constituição de empresas, envio de remessas para paraísos fiscais, isenções fiscais, e até mesmo concessões públicas de “rádio e TV” como a rede Record de Televisão e a rede Canção Nova, por exemplo.

Falando especificamente dos Católicos agora, parece-me ingênuo achar (por mais progressistas que sejam as posições de Francisco) que uma instituição de 1626 anos irá modificar por algumas posições pessoais do pontífice ou mesmo de um ou outro ato administrativo que Jorge Bergoglio venha tomar.

A Igreja católica não é a Igreja de Francisco ou mesmo a da “ONG Católicas pelo direito de decidir”, a Igreja católica real é aquela com a cara de Geraldo Alckmin e Serra membros da “Opus Dei”, é a igreja católica de Reinaldo Azevedo é a da Bancada Católica que se unifica com evangélicos no congresso nacional, é a da TFP, é a de Ironi Spuldaro, um doutrinador altamente articulado e irmanado com os valores que apregoa a Canção Nova e todas as outras organizações ligadas a superestrutura que tem sua sede em Roma.

Diante dessa realidade a pergunta que não quer calar, qual o nosso papel?

Não é de hoje que venho tentando abrir esse debate, já escrevi artigo que trazia essa questão nas entrelinhas, o texto “29 anos de saudade: Ai minha mãe! Menininha de Gantois!“, trazia o protagonismo dessa importante artífice do Candomblé que em termos de doutrina fez exatamente aquilo que qualquer Babálorixá ou Ialorixá fariam, afinal de contas candomblé é prática, é tradição, é raiz, mas foi altamente vanguardista ao fazer política.

Mãe Menininha, a Oxum de Gantois indicou o caminho das pedras e é nosso papel entender e estabelecer alternativas que façam jus ao legado de nossos ancestrais, contudo isto deve ser observado à luz de nossa realidade.

Estamos observando no Brasil desde 2008 uma onda conservadora que se torna mais aguda com a ascensão de Temer ao poder que retiram direitos adquiridos, precarizam as condições de vida do conjunto dos trabalhadores, reafirmam um projeto de poder, e naquilo que nos diz respeito aprofundam a marginalização histórica especialmente com a instituição da reforma do ensino médio e a lei escola sem partido que juntas inviabilizam a aplicação da lei 10.639 que obriga as escolas a tratarem da cultura e consequentemente da religiosidade afro nas escolas, além da proibição dos sacrifícios rituais sob a justificativa de “proteção aos animais”.

Mas não é só isso, o recente processo eleitoral com uma clara guinada à direita tende fortalecer movimentos como o MBL que se sustenta na Bancada “BBB”, um fortalecimento que ocorre não somente politicamente, ocorre “moralmente” também, com a eleição de Dórias, Crivellas e afins tendem a aumentar as agressões físicas e a destruição de nossos terreiros, somos alvos preferenciais e fáceis, cujo reconhecimento como  “Patrimônio Imaterial” não vai significar rigorosamente nada.

Temer não está seguro em sua cadeira, lhe pesam nas costas medidas similares aquelas que derrubaram Dilma, situação e oposição já discutem esse rumo e ai temos dois horizontes igualmente horripilantes possíveis por um lado Rodrigo Maia do DEM (Costela do ARENA) na presidência, intervenção militar para garantir Temer no poder.

Diante disso irmãos, ou entendemos que politizar nossas conversas e transformar cada terreiro em um Quilombo é uma questão de sobrevivência ou “inexistiremos” em pouco tempo e politizar a questão significa entender que o capital vive de ciclos e que essa particularidade faz com que nada de novo tenha sido criado nos últimos cento e sessenta e oito anos, prescindir da literatura marxista e seus grandes pensadores significa negar aquilo que foi feito e as lutas travadas até aqui, significa jogar no campo do inimigo com os valores e as regras do inimigo, significa desconsiderar a práxis revolucionária e a dialética Marxista que balizaram todas essas lutas, e nesses termos ou construímos uma saída efetivamente pela esquerda em contraposição ao que está ai com o fim do estado, do estado “democrático” de direito e portanto da institucionalidade burguesa ou seguiremos fazendo o discurso do senhor de engenho batendo palmas para o “capitão do mato”.

Fontes:

 

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