Os “ossos quebrados” do ofício de Francisco.

Por Leandro Aguiar

Fiquei sabendo após ser questionado por uma amiga e depois ao consultar a internet encontrei pequenas notas emitidas por portais da grande imprensa dando conta de uma rebelião de Internos da Fundação Casa de Marília (SP) deflagrada na noite de 04/10 onde infelizmente confirmei a morte de um agente socioeducativo atacado durante a ação. Quatro internos foram responsáveis pela agressão que levou o servidor à morte, ele teve seu pescoço transpassado por um cabo de vassoura, além disso, outros dois agentes também foram feridos, fato que me levou a publicar no Facebook minha solidariedade.

Obviamente não foi surpresa manifestações que iam desde a condenação dos internos todos, como se todos fossem culpados pelo ocorrido até os que condenaram aos servidores todos, como se todos fossem torturadores sem alma.

Honestamente pouco me importa as opiniões dos dois lados, contudo uma me chamou atenção, a da querida Karla Pires, não pelo seu conteúdo, mas pela própria Karla que é uma figura impar e pela qual tenho grande respeito.

Na ocasião travamos o seguinte diálogo:

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Demorei um pouco para responder em primeiro lugar pela correria que é a vida de professor, mas principalmente por entender que era preciso organizar a argumentação, não basta um simples post dada complexidade da questão, e tomo como base minha curta experiência de três anos e meio com importantes intervenções como agente Educacional de referência de algumas centenas de jovens e sem falsa modéstia uma destacada atuação política de base tendo sido candidato em 2013 pela chapa “Oposição em Movimento”, na ocasião a melhor votada dentro da base da fundação, destaque importante por ser um sindicato que também representa os trabalhadores e trabalhadoras dos equipamentos e serviços de assistência social da prefeitura de São Paulo, e fiz junto com alguns camaradas uma importante e combativa greve em 2014 que teve abrangência estadual com diversos atos públicos e trancaços pelo estado.

Fui demitido no próprio ano de 2014, demissão que ocorreu sem justa causa onde se valeram do estágio probatório para tal, apesar da manobra administrativa uma demissão que ocorreu em um contexto de diversas perseguições políticas devido à greve com transferências de servidores e servidoras que foram lideranças no movimento, abertura de processos administrativos e após meses como vítima de iniciativas que facilmente seriam caracterizadas como coação e assédio moral reconhecidamente por colegas de trabalho e a categoria como um todo.

Entrevista para a Rádio CBN - 20/08/2013

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Servidores do CASA Jd São Luiz em apoio à Chapa 2 - Oposição em Movimento. - 2013
Panfleto "Oposição em Movimento". - 2014
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Campanha de reintegração - 2014

Sou, portanto “perseguido político” do governo do estado de São Paulo exatamente por defender aquilo que vou defender nas próximas linhas, fui punido por lutar e não me omitir frente aos desmandos da tucanalha que vitimiza os jovens internos e os servidores.

Para entender meus argumentos é preciso pensar em concepções Marxistas clássicas e questionar por um lado a precarização das condições de trabalho, os baixos salários dos servidores, a ausência de investimentos em preparação para o trabalho que realizam fato que leva a maioria a ter dificuldades em manter suas contas pessoais, na prática a ausência de assistência saúde de boa qualidade, dificuldade de abastecimento alimentar, educação dos filhos, e a precariedade de moradia entre outras coisas, muitas vezes estes servidores são moradores das mesmas comunidades e favelas onde vivem as famílias e os jovens que estes atendem, homens e mulheres mal pagos que atendem milhares de adolescentes que tal como nós sabemos não tem acesso a educação, lazer, transporte, serviços de saúde de qualidade, vivem em moradias precárias em muitos casos apertadas para o tamanho de suas famílias e sem nenhum investimento em termos de saneamento básico, sem emprego por serem assolados pela discriminação social e na maioria dos casos pelo racismo endêmico no Brasil.

Os dois lados tem algo em comum além de dificuldades em maior ou menor grau, a convivência no cárcere e o opressor responsável pelas políticas segregacionistas que os levam a esta condição.

Colocados em um mesmo espaço que reproduz e alimenta a lógica carcerária do estado brasileiro todo o ódio, mágoa, as dores e memória emotiva que estes trazem dentro de si se afloram, questiono aos leitores e leitoras, em especial a querida Karla que pensem em qual será o resultado.

Para estes jovens o servidor da Fundação CASA e instituições congêneres é a representação da única faceta do estado burguês a qual ele “tem acesso com facilidade”, sua face de contenção e opressão que é a polícia militar e o sistema socioeducativo estadual que os tratam como sujeitos de segunda classe, são racistas, homofóbicos, machistas, xenófobos e tantos outros adjetivos quantos sejam possíveis e a sua reação na primeira oportunidade é a pior possível.

Em meus três anos ouvi e conheci  homens e mulheres com 10, 15,20, 25, 30 anos de serviços prestados a esta instituição que foram colocados em cárcere e torturados, foram erguidos no telhado com ameaças algumas cumpridas de serem lançados, foram envolvidos em colchões embebidos em álcool com fogo ateado a estes, ou amarrados à botijões de gás, perfurados, tiveram braços e pernas amputados, isso sem mencionar os danos psicológicos naqueles que viram e de alguma forma sobreviveram a isso e ai vou usar uma frase que escutei da também querida Darlene Afonso ex vice presidente do SITRAEMFA  que conheci durante este processo de disputas políticas:

“Imagine que após um destes episódios de rebelião os mesmos servidores estarão responsáveis pelos jovens que empreenderam algumas destas situações e chega um coordenador, diretor de unidade ou até mesmo um diretor regional determinando que os internos em questão sejam levados a um “quarto” com a determinação “vai lá e arrebenta”, o que vocês fariam?”.

Objetivamente temos aqui a descrição de políticas conscientes de segregação, de marginalização de negros, pobres e trabalhadores, quer saber? Não precisa nem mesmo pensar em qual seria o resultado porque é óbvio, estas duas personagens tem lá uma função clara que é a digladiação, frutos de 22 anos de PSDB.

E sobre a argumentação de que essa situação toda já existia antes eu quero dizer o seguinte, tirando o fato de que o PSDB é uma costela do PMDB e por essa é possível colocar na conta destes pelo menos mais doze anos desde André Franco Montoro Governador de 1983 à 1987, o primeiro eleito por sufrágio universal no estado de São Paulo seguido por Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho ambos do PMDB durante suas gestões, não parece plausível simplesmente “abraçar a ideia” de que são por um lado os servidores os responsáveis pela situação ou os adolescentes por outro pelo fato de que “já era assim antes”, isso só reforça a ideia de um sistema muito bem estruturado para marginalização de trabalhadores e da juventude negra desde a Fundação Pró – Menor, passando pela FEBEM, e Finalmente chegando a Fundação CASA uma instituição que nasce no “apagar das luzes” da ditadura surgida com seus valores, valores estes   que não somente não foram rompidos como foram reforçado pelo Partido da Social Democracia Brasileira tendo desde 2005 na ex - secretária-adjunta de Administração Penitenciária e diretoria-executiva da Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel” de Amparo ao Preso (Funap), mestre em Direito Processual Penal pela Faculdade de Direito da USP e procuradora do Estado desde 1987 Berenice Maria Giannella sua fiel escudeira e fiadora da falácia da pseudo reformulação que teria sido iniciada por Mário Covas  nos idos de 1998.

Dizer que já vi inúmeros colegas de trabalho "perdendo" seu tempo instruindo adolescentes quer seja pela via de sua fé, quer seja por seus valores éticos e morais familiares ou mesmo auxiliando com tarefas de reforço escolar, organização de atividades esportivas parece pouco para servir de aval para as muitas agressões que sabemos que ocorrem, também não sei dizer qual era a conduta do companheiro assassinado, mas consigo afirmar que ele assim como diversos outros trabalhadores e trabalhadoras e jovens internos foi uma das vítimas do governo fascista de Geraldo Alckmin que através do aparato do estado persegue, mata e tortura quem luta, quem trabalha ou simplesmente nasceu fora dos padrões socialmente ou economicamente estabelecidos como aceitáveis.

Leia também a nota que redigi acerca da demissão em 04/06/2014. “#CATEGORIAUNIDA: Sem causa justa fui demitido, lutar não é crime!”


10427341_754494814604347_8038451554430186122_nLeandro Aguiar  é filho de Oxalufã e Airá, historiador, professor titular da rede estadual de São Paulo, demitido político de Geraldo Alckmin da greve de 2014 da Fundação CASA, foi um dos ativistas que empreenderam em São Paulo  92 dias da histórica greve por educação pública e de qualidade em 2015 e é editor do Projeto Escola dos Communs.

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