Os sintomas de um processo que apenas começou…

11_11_2015_lbanafloEu inicio aqui um tipo de "conclusão" daquilo que defendi nos três artigos anteriores onde diferentemente dos demais eu busco apontar o caminho que eu pretendo seguir para definir o meu voto e de certa forma como critério para restabelecer ou não uma militância orgânica à partir de janeiro ou fevereiro do ano que vem.

Obviamente ele não é uma fórmula fechada, assim como eu não sou dono da verdade, porém é uma contribuição que nesta quarta parte veio dividida em duas devido sua extensão, e se é um diálogo por qual razão eu ignoraria os comentários que são um valoroso "feedbak" para aprofundamentos dos conteúdos.

Quem entra com regularidade no escoladoscommuns.com.br sabe que é um mecanismo de mídia independente na medida em que não se utiliza de nenhum tipo de publicidade, outros elementos podem ser levados em consideração como o fato de que todos os artigos são postados por mim, e qualquer um que acessar aleatoriamente poderá verificar isso, isso leva crer que para mantê-lo no ar o único investimento vem do meu bolso e como não se trata de um domínio pessoal isso requer um investimento diferentemente de sites ou blogs com domínios grátis.

Não recebo apoio, orientação, sequer incentivo para as minhas ações, participo de atos sozinho, de modo que eu não tenho vínculo com ninguém e nesse sentido concordo com os comentários feitos no texto “Em caso de Dória, Russomano, ou Marta: Vote em Haddad!”, e vou além, tudo que tem neste texto é sintomático e não apenas a percepção precipitada de que eu não falaria sobre Altino.

Aqui tem sintomas de quem viveu experiências importantes tanto no PT, quanto no PSTU, às duas organizações que estive organicamente vinculado em meus 22 anos de militância política, mas que não deve nada para ninguém simplesmente por ter aprendido fazer política sozinho, observando pessoas em quem se espelhar, estabelecendo os próprios juízos de valor e buscando caminhos de forma tortuosa, mas com honestidade de princípios e caráter.

Vivo dizendo que deixarei a militância política, mas que tipo de professor eu seria se tivesse práticas distintas daquilo que prego? Que tipo de ator eu seria, que tipo de candomblecista eu seria, quem seria eu se negasse as minhas referências inclusive políticas se eu deixasse de ser quem eu sou?

Graças a isso hoje me sinto livre, livre por ter tido a coragem de romper quando necessário e de dizer aquilo que deveria ser dito segundo as minhas percepções quando precisei ao ponto de lançar publicamente textos que contrariam grande parte das correntes, talvez todas.

Sou livre, me sinto livre e construo minha militância assim sem culpas ou ressentimentos de magoar e desapontar quem quer que seja, por quais motivos sejam, liberdade é uma condição, condição essa que me foi legada pela minha ancestralidade.

Ser preto não é apenas uma questão biológica, mas é uma escolha política em uma sociedade que busca o embranquecimento não apenas estético, mas conceitualmente e aprendi sendo e me tornando, portanto aprendi na luta ser ator, escritor, diretor, militante, professor e principalmente homem e preto, aprendi com meus erros e acertos sem depender de ninguém, sou a equação dessa gama de situações e isso sim é sintomático, são sintomas de uma esquerda que vive uma imensa crise por que se vê em uma situação de completa inoperância sem conseguir dar respostas concretas para os milhões de trabalhadores que vêm uma direita raivosa avançar em seus direitos enquanto o petismo naufraga no mar de lama que ele próprio gerou ao se adaptar e buscar a conciliação, sou causa e sintoma, sou causa de minhas escolhas que erradas ou não foram feitas, mas sou sintoma dessa inoperância que prefere apontar o dedo para a cara do que apontar a direção, sou sintoma de uma esquerda sectária que não tem pudores em exaltar Trotsky tendo em seu cerne práticas Stalinistas, e que não sabe abraçar novos militantes se auto proclamando como sendo sua a “exclusividade do espírito revolucionário” acreditando que sua organização é o fim em si mesmo.

 Aos 37 anos, como todo homem a essa altura da vida em algum momento já fui machista, já fui homofóbico, como tantos já fui xenófobo, mesmo sendo negro já fui racista (e as vezes sem notar ainda sou, trata-se de uma desconstrução diária), para mim o que ocorre é causa e consequência dos caminhos que fizemos, errei, erro e errarei muitas vezes, mas sou maduro o suficiente para separar as coisas, mas isso sou eu.

São irresponsáveis e imaturos aqueles que se julgam acima do bem e do mal, são arrogantes aqueles que com empáfia se julgam no direito de destruir a vida de uma pessoa condenando-a a um eterno “limbo” ignorando o primeiro “mandamento” para qualquer revolucionário, algo que não foi escrito ou determinado por ninguém, mas que está subentendido a partir do momento em que você se coloca a missão de ser parte da mudança que o mundo requer: “A CRENÇA NA TRANSFORMAÇÃO”.

Eu levo muito a sério a fé em uma factível transformação desta sociedade, ou de que outra maneira poderia eu desejar a transformação? De que outra forma eu sonharia na emancipação da humanidade com a extirpação de todas as formas possíveis de preconceito e opressão?

É com este olhar que vejo o pleito desse ano, não são apenas eleições, não se trata de mais uma transição entre um governo burguês e outro e ai trago de volta algo que eu disse no segundo artigo da série “Por que votar”:

"Como desperdiçar o espaço que uma candidatura eleitoral abre e deixar de denunciar a real natureza do processo e da maioria das candidaturas?

...Analisar a eleição municipal em São Paulo nessa perspectiva é particularmente relevante uma vez que representa o centro do capital tanto relativamente à burguesia nacional, quanto da América latina e o Orçamento para 2016 divulgado pela câmara municipal de São Paulo no fim de 2015comprovam isso, são R$ 54.407.300.347,00, trata-se do terceiro maior orçamento brasileiro, mas de que forma esse dinheiro é gasto? A quais interesses ele atende?"

Este trecho é emblemático dentro da visão que tentei estabelecer por conectar a ideia das semelhanças e diferenças entre petistas e tucanalhas com a polarização que de certa forma ainda se expressa nessa conjuntura mesmo que em segundo plano posto que figuras como Marta e Russomano estão na órbita dos dois partidos e ainda que busquem o protagonismo na verdade cumprem o papel de intermediar a disputa, é neste contexto que cabe a perspectiva de construção de um terceiro campo que se expresse sobretudo nas ruas, nos movimentos sociais, estudantis e sindicais, mas também nas eleições, e atualmente percebemos claramente esses três campos ainda que de forma fragmentada.

Compreendendo da extrema direita até a centro direita estão distribuídos João Dória (PSDB), Celso Russomano (PRP), Marta Suplicy (PMDB) Fernando Young (Rede), Levy Fidelyx (PRTB), Major Olímpio (solidariedade), e João Bico (PSDC),na centro esquerda como um segundo “bloco” está Fernando Haddad com PT e o PC do B, uma posição que acaba justificando inclusive suas alianças com PR, PROS e PDT, partidos com características suficientes para figurar tranquilamente neste primeiro bloco, e por fim o grupo mais fragmentado e de mais complicada identificação, as organizações que se posicionam mais à esquerda deste espectro político, e que se expressam através das candidaturas de Luíza Erundina (PSOL), Altino Prazeres (PSTU) e Henrique Áreas(PCO)

Luiza Erundina

A Paraibana de Uiraúna nasceu em 30 de novembro de 1934 é assistente social pela Universidade Federal da Paraíba e mestra em Ciências Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, atualmente o ocupa o cargo de deputada federal por  São Paulo, ela cumpre seu quinto mandato sendo que no mais recente elegeu-se pelo PSB, mas em recente transferência passou a integrar a bancada do Partido Socialismo e Liberdade em uma negociação conhecida como filiação solidária enquanto o partido que articula o RAIZ não sai do papel.

Sua trajetória política iniciou-se em 1958 no cargo de diretora de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal de Campina Grande passando a secretária de Educação e Cultura dessa cidade em 1964.

Nos anos 70 passou a integrar Ligas Camponesas em oposição Golpe Militar período em que a participação de mulheres nordestinas, na política, praticamente inexistia e por essa razão passou a sofrer perseguições.

Em 1971 já em São Paulo, foi aprovada em um concurso público onde se tornou assistente social da prefeitura, seu foco de trabalho eram os migrantes nordestinos nas favelas da periferia da capital paulista.

Aprovada em novo concurso agora para a Secretaria do Bem-Estar Social passa a colaborar com movimentos de periferia que reivindicam moradia e ocupam terrenos públicos abandonados, muitas das vezes em associação com as Comunidades Eclesiais de Base.

Em 1980 aproxima-se de Luiz Inácio Lula da Silva e com ele é uma das fundadoras do PT.

Por esse partido ela foi eleita vereadora em 1982, deputada estadual constituinte em 1986, antes em 1985, foi a escolhida para ser candidata a vice-prefeita na chapa encabeçada por Eduardo Suplicy.

Integrante trotskista da ala petista mais radical se torna candidata em 1988 às prévias do partido para a decisão do candidato à prefeitura de São Paulo nas eleições daquele ano saindo vencedora contra Plínio de Arruda Sampaio, então apoiado pelo setor majoritário considerado mais moderado e por suas maiores lideranças: Lula, José Genoíno e José Dirceu.

Na corrida municipal a petista supera Paulo Maluf (PDS), João Oswaldo Leiva (PMDB), José Serra (PSDB), João Mellão Neto (PL), e Marco Antônio Mastrobuono (PTB).

Em sua gestão Luiza Erundina entre 1989 e 1993 implementou mudanças nas áreas de educação ao lado de Paulo Freire e, Mário Sérgio Cortella, e saúde, sua principais medidas foram o aumento do salário e da capacitação dos professores da rede municipal, a melhoria na distribuição e qualidade da merenda escolar, a criação dos MOVAs (Movimentos de Alfabetização, centros de alfabetização e instrução de adultos) e a implantação de serviços de fonoaudiologia neurologia, entre outros, nos postos da cidade, além do desenvolvimento de políticas sociais mais voltadas para a periferia.

Na cultura com comandado da professora Marilena Chauí e projeto de Oscar Niemeyer foi responsável pela construção do Sambódromo do Anhembi, também implementou a restauração de grandes bibliotecas do centro da cidade, como a Biblioteca Mário de Andrade, e alguns melhoramentos como equipamentos para combater incêncios e um sistema de ar-condicionado central, além de pequenas intervenções nos salões térreos destinados ao público sem a devida conclusão pelo sucessor Paulo Maluf, nessa área ainda deixou como legado a lei de incentivo fiscal à cultura do município, a Lei Mendonça.

Apesar de ser considerada à época uma das principais lideranças de esquerda posteriormente inicia um giro à direita, perdeu as eleições de 1992 para Paulo Maluf e em 1996, também perdeu em 2000 e 2004 tendo nesta ocasião Michel Temer como candidato à vice.

Em 2014 foi Coordenadora-Geral da campanha de Marina Silva a candidata à Presidência da República recentemente foi candidata à presidência da Câmara dos Deputados após a renúncia de Eduardo Cunha onde levantou a bandeira de uma maior participação feminina em instâncias politicas e mostrou-se favorável à reforma política.

Em 2016 onde é candidata pela quinta vez pela Coligação "Os Sonhos Podem Governar" a veterana inclina-se levemente para esquerda com um discurso que pode ser considerado no máximo progressista.

O principal processo contra a candidata deveu-se ao uso de verba pública para anunciar, em 1989 durante sua gestão pelo PT, um anúncio publicado na Folha defendendo a greve geral dos transportes.

Sentenciada em 2000 apenas em 2008 ela foi condenada a devolver à prefeitura R$ 353 mil que foram depositados em juízo por seus advogados.

Leia a Continuação do artigo em "...e o olhar pragmático como instinto primário de sobrevivência."  

Deixe uma resposta