Retrospectiva 2016: A educação pública como retrato.

Eu cheguei a prometer algumas reflexões importantes para serem publicadas em artigos no “Escola dos Communs” e até mesmo algumas outras que pensei serem importantes para entender junto com todos que pensam a realidade, mas tenho privilegiado organizar os blogs do projeto, minimamente o Blog principal para que eu consiga garantir publicações regulares desde o início de 2017, apesar disso não posso evitar a angustia que me acomete depois de fechar meus diários referentes ao ano letivo de 2016 e por isso resolvi começar por aqui minha retrospectiva do ano em um especial que deve tentar sintetizar um pouco das minhas impressões e posições.

Para que todos entendam, nas minhas seis turmas têm 204 alunos sendo 153 “frequentes ou com baixa frequência”, desses 25% se evadiram, 22% passaram pelo conselho (com nota baixa entre Uma e três disciplinas e menos de 200 faltas) e 11% foram retidos, portanto 58% da lista original. Não creio estar muito distantes dos números da rede como todo.

Vendo isso consigo entender as razões que justificam a observação de uma colega que disse durante a realização do conselho: “O governo quer reformar o ensino médio, mas faz vinte anos que não tem reprovação no estado, o gargalo está aí.”.

Não precisa ser gênio para entender e basta fazer as contas para perceber que apesar de existirem problemas históricos na educação pública o contexto atual é a resultante dos vinte anos de PSDB, os vinte anos da instituição da progressão continuada que formou alguns milhares de analfabetos funcionais durante todo este período ao que tudo indica vai ampliar esse contingente.

Com as reformas propostas pelo governo Temer que propõe a retirada de disciplinas importantes como sociologia e filosofia, a extinção da liberdade de cátreda através da adoção da lei escola sem partido, a desvalorização dos profissionais em educação, redução de investimento com base na PEC 55 (PEC da morte), mudanças nas regras previdenciárias, além da imposição da educação em período integral, todas medidas que trazem como efeito colateral o desestimulo de pessoas a ingressarem para o ofício docente, e a redução do quadro do magistério dada as aposentadorias e os pedidos de exoneração em ritmo acelerado vemos que o quadro é caótico, contudo a pergunta que não quer calar: “Quais são as perspectivas para a juventude, principalmente a juventude pobre, negra e periférica?”.

Ao assumir em 2003 Lula e o PT fizeram uma opção, optaram em estabelecer um governo de coalizão com os partidos dos patrões, do agronegócio, das multinacionais contra os trabalhadores, estudantes e movimentos sociais, e levaram relativamente bem em um período de ascenso da economia mundial, mas havia uma crise no meio do caminho, no meio do caminho havia uma crise e mais uma vez a opção foi pela patronal.

Os petistas na ocasião entenderam que o melhor caminho era desonerar as empresas e preservar a patronal com a concessão das linhas de crédito endividando trabalhadores e trabalhadoras, pois bem, veio 2013 e Dilma que caminhava para o último quarto de seu mandato deparou-se com manifestações massivas que estouraram nos protestos contra aumento das tarifas de ônibus e que tomaram corpo e com isso fizeram emergir as demandas que vinham de todo esse processo, e o que Dilma fez? Deu as costas falando de “repactuação”.

Repactuar com quem? Com os mesmos partidos que formavam a sua base e que agora passada a sua reeleição e o primeiro ano de seus segundo mandato se unificaram para impor o golpe institucional que lhe levou a deposição via impeachment.

Aqueles que são apoiadores dos governos petistas não estão de todo errados houveram avanços em gastos sociais, um aumento significativo em termos de investimento em educação sobretudo educação superior, alguma diminuição das diferenças sociais com o aumento do salário mínimo e graças a isso o surgimento de uma “nova classe média”, uma classe média fictícia dada a não ruptura do PT com as bases neoliberais implementadas pelos governos Collor, Itamar, e FHC e principalmente a não ruptura com o FMI.

Michel Temer é um oportunista que se valeu do aprofundamento da crise econômica para gestar o golpe, porém é legatário dessa estrutura, recebeu a casa pronta para aprofundar os ataques que Lula e Dilma já faziam. Aprofundar quanto?

A essa altura já não tenho condições de afirmar até onde vai a gana dos golpistas nem mesmo o rumo que isso pode tomar inclusive considerando os altos e baixos como foi o caso do afastamento de Renan no dia de hoje sendo substituído pelo petista Jorge Viana, sob o ponto de vista legal é preciso lembrar que o mais provável é imaginar que Temer leve o atual mandato até o fim preparando a sua sucessão possivelmente por Alckmin dando um verniz de legalidade, mas Temer corre o risco de não terminar e  de acordo com a Constituição se o processo de impedimento ocorrer na primeira metade do mandato(até Dezembro), o presidente da Câmara, o deputado Rodrigo (DEM), assume interinamente e uma nova eleição é marcada em até 90 dias porém, caso a cassação ocorra na metade final do mandato (à partir de Janeiro), o presidente da Câmara assume e é realizada uma eleição indireta para a escolha do sucessor onde votam apenas senadores e deputados federais, abrindo caminho para que Aécio Neves, Serra e afins cheguem à cadeira presidencial no palácio do planalto antes de 2018.

Qual é o pior? Tanto faz Temer já deu a linha deixando claro que quem vai pagar as contas somos nós, as eleições municipais deste ano consolidaram o crescimento de setores mais conservadores da política nacional que serão a base destes ataques através dos aparatos da superestrutura nos três níveis de governo e com isso mais recessão, mais desemprego, maior queda da qualidade de vida e ai temos a resposta da pergunta original: “Quais são as perspectivas para a juventude, principalmente a juventude pobre, negra e periférica?”

As piores, os mesmos governos que retiram direitos e investimento das periferias precariza a educação pública através das supracitadas retiradas de investimentos e desvalorização da atividade docente e forma analfabetos e/ou analfabetos funcionais que certamente terão dificuldades para se colocar no mercado de trabalho, e por outro lado temos uma esquerda desarticulada e fragmentada incapaz de agregar e construir uma práxis para além do movimento teoricamente organizado, ou mesmo para além das próprias fronteiras de sua periferia política e em muitos casos reproduzindo o discurso da direita mais reacionária como foi o caso da nota do PSTU sobre as manifestações direitistas que iriam para as ruas neste 05/12, em nota diz a “Direção Nacional do PSTU”:

“Operários, trabalhadores e desempregados, a periferia, setores populares, a juventude que está ocupando escolas e inclusive grande parte ou mesmo a maioria dos setores médios que foram às ruas contra a corrupção. Poderia e deveria haver uma luta unificada pelas seguintes bandeiras: Contra a corrupção, em defesa da prisão dos corruptos e dos corruptores, Fora Temer e Fora Todos eles, pela derrubada da PEC 55 e da reforma da Previdência, em defesa do emprego, da educação e da saúde.

Acontece que os grupos dirigentes ligados ao PSDB de um lado, e os ligados à “Frente Ampla” (ou Frente Povo Sem Medo e Frente Brasil Popular) de outro, não querem unir a luta, porque, na verdade, não querem nem botar Fora Temer, como querem manter uma polarização eleitoral visando as eleições de 2018.”

Claramente os socialistas caem em contradição naquilo que tange o seu programa de independência de classes e o encaminhamento que dão para este cenário e com isso a esquerda, especialmente o “Marxismo Trosko” fica menor, o alinhamento de revolucionários com a direita mais reacionária traz desalento e não é motivo de comemoração, mas a mim pessoalmente me dá certo alívio na medida em que começo a entender as razões pelas quais houve a recente hérnia que deu origem ao MAIS e pelas quais fui queimado e difamado em práticas claramente Stalinistas por quadros dessa organização.

Não é de hoje que eu afirmo que esta corrente está rachada, que existe uma lacuna que lhe afasta dos trabalhadores e que é uma organização que se cristaliza, sectariza e burocratiza.

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