Retrospectiva 2016: O Analfabeto Político

Bertolt Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.


O primeiro texto desta retrospectiva partiu de um paralelo entre os resultados de minhas turmas de 6º ano de educação fundamental II como amostragem de um cenário muito maior e em perspectiva muito pior, pior na medida em que a pressão pela aprovação é descomunal, ao contrário do que eu imaginava  não existe uma sugestão para isso, existe uma deliberada fabricação de resultados no sentido de se produzir estatísticas e isso impacta diretamente a relação das massas com o jogo de poder e sua atuação para a resistência.

A antiga concepção de que a precarização era necessária para os governantes com o objetivo de criar uma população acrítica e com isso gerar um facilitador para suas manobras administrativas e políticas se torna realidade de forma muito mais “sinistra” atendendo a outra necessidade dos governos, os resultados produzidos dão conta da exigência de organismos internacionais por estes dados, ou seja o antigo mantra das esquerdas em relação as famosas contrapartidas impostas para a concessão de empréstimos mostra a sua cara , estamos formando analfabetos funcionais, acríticos, sem quaisquer base para minimamente ocupar uma função no mercado de trabalho de modo de que a tal “reforma do ensino médio” nada mais é que o aprofundamento desses ataques e dessa forma o discurso opressor que distingue as pessoas  por gênero, orientação sexual, etnia e afins “cola” mais facilmente, a atual onda conservadora não é fruto tão somente do descrédito nos grupos de esquerda, mas da ausência do necessário arcabouço teórico para a resistência.

Vejamos o que isso significa analisando os fatos mais marcantes deste ano:

Em 2016 conhecemos uma nova moléstia que surgiu devastadora principalmente nos países periféricos e em 01/02/16  a OMS após constatar a chegada do Zika vírus e da microcefalia em países centrais   na geografia econômica mundial declara estas moléstias como emergências públicas internacionais. Apesar da cobrança da diretora-geral da entidade), Margaret Chan, em nenhum momento ela ou a entidade fizeram uma análise acerca da indústria farmacêutica e as consequências que trazem quando o assunto é a falta de acesso de populações carentes aos tratamentos para estas e outras doenças principalmente com características epidemiológicas.

Fevereiro de 2016 também se tornou histórico quando em meados de 11/02/16 portais e agências de notícias do mundo todo divulgaram a comprovação da teoria de Albert Einstein acerca das teorias gravitacionais que seriam emanadas de todos os corpos em movimento, tal descoberta segundo as notas divulgadas interfeririam em todos os ramos da ciência, inclusive o conceito “tempo espaço”, na prática isso significa alterar a noção de deslocamento  já que as ondas provocam distorções no tecido do espaço tempo que funcionam como pontos de localização geográfica, isso também altera a nossa de gravidade e consecutivamente a ideia da expansão espacial.

Em que isso altera a minha vida? Nós ainda vamos voltar nesse ponto, mas em um contexto de reformulação da base nacional curricular e reforma do ensino médio o debate está na privação ao acesso a este conhecimento uma vez que a reformulação não obriga aos sistemas de ensino garantir a ampla oferta de todo conteúdo e com a política de progressão continuada, ainda que as mudanças signifiquem em algum nível a melhora teórica do sistema o fato de que efetivamente temos uma situação de terra arrasada com profissionais desvalorizadas e ausência de condições dignas de atuação profissional dignas o cerceamento se dá na manipulação de resultados, se dá na certificação de analfabetos.

Em abril (03/04) veio à tona um grande de esquema de sonegação por meio de paraísos fiscais em escala global, um esquema denominado “Panamá Papers” revelou em torno de 200 mil contas offshore (empresas utilizadas como artifício para dificultar a detecção de propriedade de valores) a investigação foi promovida por um consórcio de jornalistas no mundo todo e segundo dados levantados diversos dos brasileiros envolvidos estão inclusos nas investigações da Lava à jato, são políticos de no mínimo sete legendas. (PDT, PMDB, PP, PSB, PSD, PSDB e PTB) um esquema de corrupção que serve de elemento para questionamento objetivo das medidas de contenção de gastos que estão sendo anunciadas recentemente, isso porque não se tratam somente de medidas de “austeridade fiscal”, são também de acobertamento dos saques feitos do erário público e que na prática significa que pagamos duas vezes, a primeira no ato do desvio e a segunda por ocasião da retirada de direitos sob o codinome de “austeridade ou ajuste”.

O primeiro semestre também foi marcado por grandes atentados em especial na Europa e Oriente médio em 22/03 um atentado em Bruxelas vitimou 170 pessoas das quais 34 morreram, em 12/06 em Orlando 50 pessoas foram assinadas e 53 ficaram feridas em um ataque a uma boate Gay, um ataque cuja autoria foi assumida pelo estado Islâmico, em 28/06 em mais um ataque em Istambul do EI 36 pessoa morreram com mais 147 feridos, o primeiro semestre ainda presenciou dois grandes atentados um no Iraque com natureza suicida onde 200 pessoas foram mortas em 04/07 e outro nas celebrações da tomada da Bastilha em 14/07, feriado mais importante da República Francesa ,outras 85 pessoas também morreram e 18 ficaram gravemente feridas.

É simplista defender que essa foi a única razão para a saída do Reino Unido da União Europeia através do contestado referendo ocorrido em 24/06, mas é inegável a influência deste cenário de instabilidade em seu resultado.

O grupo Estado Islâmico não tem nada de minimamente “libertário” estando a anos luz de ser revolucionário, é um grupo de extrema direita que serve única e exclusivamente aos seus próprios interesses e medidas como aquelas que ocorreram na Inglaterra se tornaram referência no imaginário da população média que não encontra “nas esquerdas” uma expressão de seus anseios e o velho discurso de ódio ao diferente, ao não cristão, ao estrangeiro ganha força e desdobramentos nacional e internacionalmente ao longo de todo o segundo semestre.

É para este contexto que estamos formando analfabetos, duas ou três gerações que presenciaram a crescente precarização do sistema público de educação e que mesmo vitimada pela falta de informação, e tendo seus direitos mais elementares saqueados terá que dar conta deste processo, de modo que devemos entender o processo em três dimensões, temos o impacto pessoal nas atividades mais simples como o consumo ou a organização de suas finanças, a profissional onde o despreparo impõe um assolamento ainda maior pelo desemprego ou a precarização das condições de trabalho, e por fim a dimensão política onde temos um proletariado bastante vulnerabilizado por sua fragilidade intelectual, o retrocesso imposto pela adaptação ao sistema de boa parte dos lutadores, e o fortalecimento do 4º poder [1] através da relação imoral com a superestrutura do estado em seus três níveis de poder.

[1] Imprensa Burguesa.

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