Seminário Tradições Africanas e Racismo: Bem intencionado, mas longe de nossas tradições.

Fui hoje em um seminário realizado no sindicato dos metroviários de São Paulo intitulado: “Seminário tradições Africanas e Racismo” de iniciativa do vereador Toninho Véspoli do PSOL da capital paulista. Uma atitude louvável ainda que incipiente e que merece alguma reflexão.

No Facebook foi criado um evento para convocara a atividade que deve ter reunido entre cem e cento e cinquenta ativistas e lideranças religiosas de Umbanda e Candomblé de diversas nações e no evento virtual a convocatória foi feita com os seguintes dizeres iniciais:

A liberdade de crença é um direito assegurado na Constituição Federal que necessita urgentemente de validade prática. Ainda que intolerância religiosa seja considerada um crime de ódio, ela continua acontecendo no Brasil e são as religiões de matrizes africanas que mais sofrem perseguição. Se não fosse a bravura e resistência das sacerdotisas e sacerdotes, os Povos de Terreiro já teriam sido sepultados pelo racismo.

No dia 21 de Janeiro comemora-se o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que foi oficializada em 2007 para rememorar o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana. A sacerdotisa foi acusada de charlatanismo, sua casa foi atacada e pessoas da comunidade foram agredidas.

Tais palavras foram um prenúncio do que foi o evento e deu a tônica das falas e intervenções realizadas, convertendo-se em um ato pela legalidade no direito de existir marcando assim o ato institucional que definiu a finalidade do dia 21 de Janeiro nos idos de 2007.

De cara chamou a atenção a ausência da companheira de partido de Vépoli na câmara municipal, Sâmia Bonfim, e chama atenção principalmente devido ao fato de que passou a sensação de ser esta uma ação individual para promoção do mandato e não uma diretriz partidária, passa a sensação de que ela não teria sido sequer convidada já que pelo pouco que lhe conheço não me parece seu feitio dar as costas para este tipo de causa e ainda que não estivesse presente, marcaria sua participação através de um assessor ou assessora.

Ao menos eu espero que seja assim afinal a negativa em construir essa agenda no atual momento político seria algo ainda mais grave para alguém que se candidatou e propõe um mandato combativo ao golpismo que está posto em todas as esferas de poder.

No mais vimos falar de Jesus Cristo, vimos falas importantes marcando o nosso direito de existir, mas sempre balizadas pelos marcos da institucionalidade da mesma sociedade que nos rechaça cotidianamente.

Outro elemento que chamou a atenção foi a ausência de encaminhamentos e uma coordenação de uma agenda para ampliar e dar o devido combate pelo efetivo direito de existir e com isso o debate relativo ao “racismo” foi colocado de maneira generalizante e teórica colocando em um segundo plano a diáspora negra e o surgimento da Umbanda e do candomblé como resultante de um processo consciente da elite branca que ainda nos dias de hoje se beneficia deste processo sob as vestes da democracia racial e da miscigenação, sendo possível dizer que em algumas ocasiões foi possível verificar nas entrelinhas o discurso do “racismo reverso” e a diluição dos aspectos de gênero (machismo, homo e transfobia) na constituição da sociedade contemporânea.

Caros irmãos e irmãs de fé, você mesmx que chegou até este ponto do texto, se é verdade que temos mais de dez mil anos de história (eu arriscaria muito mais), se é verdade que somos descendentes de guerreiros, reis e rainhas, também é verdade que vivemos em um outro contexto, vivemos em um mundo, de Dórias, Serras, Alckmins, Sarkozys, Trumps, vivemos em um mundo onde afirmar uma identidade de gênero, ou étnica, religiosa diferentes daquilo que dita a heteronormatividade eurocêntrica, branca, Judaico/Cristã é em essência aceitar correr riscos quer sejam físicos e de sobrevivência material, é assumir uma posição política e nestes termos reafirmo e complemento a minha intervenção como militante político há mais de vinte anos, negro, filho de asè e educador da rede pública estadual de educação em São Paulo:

Precisamos nos constituir como força política para além da simples representação parlamentar, temos que defender dentro do movimento um programa que contemple as nossas demandas, é essencial sabermos para onde vamos e com quem vamos.

Não me sinto representado por irmãos ou irmãs de fé que na busca de um projeto político pessoal reproduzem em sua trajetória à partir de seus lugares de fala o discurso do opressor.

Que venham novos encontros, debates, workshops e congêneres que não somente debatam, mas encaminhem a luta ao lado dos nossos e que serram trincheiras contra as políticas de retirada de direitos e a criminalização do povo preto, pobre e trabalhador que são sim a base do nosso povo e que são os que mais ressentem os ataques aos direitos conquistados ao custo do nosso suor e sangue. Se reivindicamos Zumbi, Dandara, Luiz Gama e por que não Abdias sejamos coerentes com seu espírito quilombola. Não foi a institucionalidade que nos legou a liberdade, não somos libertos pela lei Áurea, estas nos tornaram cativos e seguem diariamente à tentar recolocar os grilhões em nossos pés, a liberdade é fruto das bênçãos de nossa ancestralidade, dos nossos Orixás e catiços, de nossas lutas e mobilizações.

Para terminar já invadindo o dia 22/01 deixo meu desafio para as correntes da chamada “esquerda revolucionária”, PCB, PSTU, #MAIS, MRT e outras tantas que se sentirem dentro dessa gama no espectro político, mas principalmente ao movimento negro organizado. Está mais do que na hora de agregar em vossos programas acerca de opressões a questão da intolerância religiosa.

Não é toda religiosidade que fomentam o “status quo”, não é toda religiosidade que defende a agenda regressiva de Temer, e se existem herdeiros legítimos do espírito de Palmares esses estão nos terreiros, guerreiros e guerreiras que são perdidos para a direita mais reacionária que ocupa o espaço vazio deixado pelas esquerdas que não ofertam alternativas para a vazão a nossa necessidade de reexistir.

Principalmente está na hora de instrumentalizar canalizando para as ruas, ocupando onde for possível e impondo a nossa presença, impondo o necessário respeito e dignidade que não experienciamos, senão pela luta.

 

“Por menos que conte a história

Não te esqueço meu povo

Se Palmares não vive mais

Faremos Palmares de novo.”

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